Monday, 23 March 2009

Um amigo morreu.

Hoje morreu um amigo, suicídio.

Nem preciso dizer da tristeza que me deu, um sentimento de desperdício, de perda de tempo, essa coisa funcionalista como se a vida fosse teleológicamente calculada, tivesse um fim, uma meta, uma finalidade.

Depois me despi dessa coisa funcional da vida, e admirei o absurdo da morte dele. E do absurdo tomei consciência da solidão dele, da nossa solidão.

Mudei-me para o meu apartamento há seis meses. Raramente ouço os vizinhos, mas eu mesmo falo sozinho, falo com o Zé, rio, solto máximas e um ou outro palavrão. Hoje, com a notícia da morte do meu amigo, me deu a impressão de que ninguém na vizinhança se relaxa e ri, fala alto ou xinga um palavrão. Todos parecem conversar quase, sem voz, apenas o essencial. Um silêncio de respeito ao vizinho, mas um silêncio de morte.

Com a morte desse meu amigo, estampou-se na minha cara algo de que eu já suspeitava: com 4 anos corajosos de Inglaterra, e agora, retornado ao país, concluo que lá eu tinha mais amigos que me visitavam, e a solidão era menor. Aqui, com um custo enorme, amigos aparecem. Cansei de convidar.

Meus amigos ingleses me visitavam e eu a eles com frequência semanal. Sempre havia, nem que fosse uma hora na semana, espaço para uma conversa ou um drink. Os pubs locais eram lugares com os mesmos clientes que você conheceria cedo ou tarde.

Aqui, meus amigos estão todos num cio tropical eterno, a cata de satisfação. Todos urgentes, sem tempo, sem espaço, só podem conquistar seus prazeres e afazeres agora e agora, depois será tarde, eles pensam.

Meu amigo morreu, suicidou. Havia de ser forte pra encarar essa solidão tropical, suada e mentirosa, mentirosa porque sempre dá desculpas aceitáveis, tais como a namorada que gruda igual a visgo, a família briguenta que ninguém aguenta mas serve pra se desculpar e o escambau para ficar na ausência com os amigos.

Se ele tivesse alguém próximo, que dissesse que não, que talvez, por mais estúpido que tudo parecesse, ele não precisasse se matar, então talvez ele não tivesse antecipado esse sem sentido. Alguém que dissesse que não, que mentisse dizendo que vale a pena, que amanhã sempre vem, que a vida é cheia de amigos.

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