Queridos Pais,
Queridos estudantes,
Senhoras e Senhores aqui presentes,
Para que eu pudesse retribuir o grande afeto dessa turma de formandos ao ter me convidado para ser seu paraninfo, eu acreditei que deveria trazer para eles, nessa ocasião, um discurso inspirador.
Um discurso que incutisse neles a esperança de realização e que os inspirasse a um exercício profissional pleno e dedicado. E também que aquilatasse a responsabilidade social que eles adquiriram pelo fato de terem se formado numa das melhores universidades públicas e gratuitas do Brasil. Um discurso que esclarecesse que por esse fato, eles estariam assim em débito para com a sociedade e devendo a ela parte dos agradecimentos que ora se fazem.
Retribuir esse carinho e simpatia também me forçava a trazer para esse discurso originalidade e destreza, de modo a entreter os ouvintes com elegância, sendo ao mesmo tempo inusitado mas tradicional, ilustrado mas simples, rigoroso mas simpático.
Entretanto, ao tentar escrever um discurso com essas características, duas coisas me tiravam a paz.
A primeira delas era o fato de eu não ser tão bom escritor e orador, como o são os meus colegas, aqui homenageados, com quem na verdade, eu aprendi a escrever e a fazer discursos.
O arquiteto Sylvio de Podestá desde sempre marcou o cenário nacional com as suas publicações em arquitetura.
Igualmente o fez a professora Celina em inúmeros artigos e livros, tendo sido ela minha professora no mestrado.
O professor Flávio Hara não foi meu professor, mas sei que tem o talento de escrever muito bem em francês.
O professor Eduardo Ferolla – que foi meu professor -, além do talento arquitetônico, é de uma fluência imaginativa ao escrever, que me causa inveja.
A professora Juliana Torres, coordenadora do curso, para minha tristeza não foi minha professora, mas também tem fluência e escreve muito bem.
E finalmente o diretor do curso de arquitetura, o professor Flávio Carsalade, esse sim foi meu professor e escreve muitíssimo bem, posso atestar.
De modo que eu, aqui, sou quem talvez menos talento tenha para urdir um discurso.
O outro ponto que me deixava ansioso era o fato de que o tempo que eu tive para conhecer os estudantes dessa turma foi extremamente breve. Fui o professor deles na disciplina de Plástica, logo no início do curso, e depois me mudei para a Inglaterra para fazer meu doutorado. Durante 4 longos anos fora do país, a lembrança que eu tinha deles foi através de fotos dos excelentes trabalhos que eles fizeram na disciplina e eu as utilizei como material para um estudo de caso no mestrado que acabei fazendo em Educação Superior na Inglaterra. Também me lembrava deles, especificamente por causa do contraste com sua motivação individual e energia quando, no doutorado, eu tive de fazer entrevistas com desanimados estudantes e arquitetos ingleses.
Talvez o meu contato com essa turma de formandos tenha sido muito marcante naquele início, apesar de breve, porquê estivessemos, eu e eles, em momentos muito semelhantes quando nos encontramos: estavamos iniciando um momento desafiador em nossas vidas, mas com muita disposição. De maneira que um forte afeto, a partir de um breve contato, é o que me traz aqui, mas me deixa sem ter meios de rememorar, num discurso, fatos e feitos para atestar que nossa amizade tem alguma história.
Então, tentando escrever esse discurso, devo confessar que diante desse quadro, eu deixei de lado as minhas intuições e sentimentos e parti errôneamente para pesquisar como se faz um discurso ( até olhei no google e encontrei, com espanto, uma empresa em Portugal que faz discursos sob encomenda).
Depois, recobrei meu juízo e fui me lembrar, num esforço diametralmente oposto, d´A Poética, de Aristóteles, onde ele me aconselhava a ter um inicio, um meio, e um fim, a ser coerente, sintético, e a usar bom português, no meu caso. Isso me confortou sim, mas, no entanto, não me inspirou.
Depois me lembrei das aulas que eu tive com a saudosa professora de filosofia Sônia Viegas. Numa delas, a respeito do Fedro, de Platão, Sônia comentou sobre uma passagem.
Sócrates quis cobrir seu próprio rosto, ao discursar, usando os mesmos argumentos falaciosos que Lísias usara para seduzir Fedro. Quando Sócrates terminou seu discurso, Fedro não tinha dúvidas de que ele era melhor do que o discurso de Lísias. Mas a seguir, entretanto, Sócrates sentiu urgência em refazer todo discurso, e finalmente utilizando então argumentos, agora como obrigação moral em falar a verdade, discursou novamente, sem cobrir seu rosto. E dessa forma foi feito um dos mais belos discursos sobre a origem do amor. Assim, descrevendo Sócrates e Fedro, a professora Sônia Viegas comentou que Platão deixava claro, através desse episódio, que um belo discurso só pode ser belo se falar a verdade.
Muito embora eu concorde com isso, na verdade eu não sei se é certo, quero dizer, válido universalmente. Mas, por exemplo, basta observar como reagimos aos discursos dos nossos políticos para constatarmos nossa indisposição com a mentira e com a oratória ruim.
Tão cansados já estamos com a mentira que se oculta na formalidade vazia de alguns discursos, que sintomaticamente já esperamos por ela ao ouvir qualquer discurso. Por exemplo, basta observar com sinceridade quantos de nós, aqui e agora, deseja verdadeiramente que minha fala seja breve.
E eu serei breve, então.
E vou me dirigir exclusivamente aos formandos aqui presentes, pedindo licença aos demais:
Eu gostaria de dizer a vocês que estamos num momento fabuloso, que a nossa economia está estável, que a sociedade brasileira vai muitissimo bem e que nesse cenário os profissionais de arquitetura são extremamente necessários e têm fantásticas oportunidades de trabalho. Mas prefiro dizer sinceramente que tenho muita esperança de que um dia tudo isso seja verdade. E quando for, desejo ardentemente que vocês tenham se mantido de pé, suportados pela fé num futuro melhor.
Que vocês nunca percam a capacidade de sonhar,
que vocês consigam manter essa paixão pela arquitetura
e lutem para que o meio ambiente seja respeitado por todos.
Que vocês sejam felizes no seu trabalho,
bem humorados, e tenham nele prazer e não se cansem,
por mais que as pessoas que olham de fora pensem que vocês estejam sofrendo.
Que vocês renovem essa paixão pela arquitetura a cada dia,
e transformem todas as ocasiões em oportunidades para criar e melhorar o que já está criado.
Que vocês sejam verdadeiramente felizes.
Vocês quiseram ser arquitetos.
E vocês chegaram até aqui porque vocês quiseram.
Vocês tem tudo para dar certo.
Parabéns, e obrigado.
Saturday, 21 March 2009
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