Tuesday, 31 March 2009

Desenganos da vida humana metaforicamente


É a vaidade, Fábio, nesta vida

Rosa, que de manhã lisonjeada,

Púrpuras mil, com ambição dourada

Airosa rompe, arrasta, presumida.

É a planta, que de abril favorecida,

Por mares de soberba desatada,

Florida galeota empavesada,

Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,

Com presunção de Fênix generosa,

Galhardias apresta, alentos preza:

Mas para se planta, ser rosa, ser nau vistosa

De que importa, se aguarda sem defesa

Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
Gregório de Matos

Monday, 30 March 2009

Galifórnia

Abapouru, da pintora Tarsila do Amaral. Abapouru quer dizer Antropofagia, que vem do grego,antropos (homem) e fagia (comer), ou seja, "homem que come", em tupi-guarani. Foi pintado em óleo sobre tela em 1928. Me deu no saco, que eu não aguento nem olhar.


Garota eu vou pra Califórnia....


Hoje eu reli o manifesto antropofágico e me deu de novo aquela náusea. Eu detesto Oswald de Andrade e suas invenções da "moderna" cultura brasileira. Suspeito de todo e quaisquer revolucionários, ainda mais esses, de início de modernismo tardio brasileiro. O Brasil é o único país onde, encontrando uma tábua rasa para semear qualquer modernidade, é preciso ter um camarada igual o Oswald, com nome inglês, reclamão de uma identidade brasileira que ele chama de si para si, para especificar, aludindo a todos como preguiçosos, larápios and so on. Burn in hell dear Oswald. Aonde está você aqui hoje?



Saturday, 28 March 2009

Bem

Uma ponte sobre o precipicio.

Que coisa é essa, que sai inflamando tudo que toca, renova tudo que encontra e com energia resfolega de tanto falar?

E eu, que já estava entronizado entre as nações, eu sou obrigado a me estremecer todo, de novo as palmas das mãos úmidas, o coração pulando pela boca, meu olhar pior que um scanner 6000 dpi varrendo a realidade.

Eu, que reservei esse tempo pra ficar velho, mas ao contrário sou perturbado pela generosidade da vida, pelo carinho, pelo amor e curiosidade.

Tem horas que eu fico irritado com esse excesso de felicidade.

Friday, 27 March 2009

Pub


Então seria melhor ignorar sempre, e virei ilhado (olhado?) Ilhado, sem me aperceber de quem quer que fosse. Um olhar me chamou.

VII

Há duas imagens que me chamam: uma gorda bem grande e sorridente que serve no till e, logo atrás, em inúmeros vidros, a sucessão de cantoras anoréxicas, macérrimas. Há dois sons: o meu ipod com o qual estou em lua de mel, e a trilha estridente dos esqueletos das anoréxicas lá atrás, atrás da gorda real, linda e sorridente, viva, que serve todo mundo.

Monday, 23 March 2009

Um amigo morreu.

Hoje morreu um amigo, suicídio.

Nem preciso dizer da tristeza que me deu, um sentimento de desperdício, de perda de tempo, essa coisa funcionalista como se a vida fosse teleológicamente calculada, tivesse um fim, uma meta, uma finalidade.

Depois me despi dessa coisa funcional da vida, e admirei o absurdo da morte dele. E do absurdo tomei consciência da solidão dele, da nossa solidão.

Mudei-me para o meu apartamento há seis meses. Raramente ouço os vizinhos, mas eu mesmo falo sozinho, falo com o Zé, rio, solto máximas e um ou outro palavrão. Hoje, com a notícia da morte do meu amigo, me deu a impressão de que ninguém na vizinhança se relaxa e ri, fala alto ou xinga um palavrão. Todos parecem conversar quase, sem voz, apenas o essencial. Um silêncio de respeito ao vizinho, mas um silêncio de morte.

Com a morte desse meu amigo, estampou-se na minha cara algo de que eu já suspeitava: com 4 anos corajosos de Inglaterra, e agora, retornado ao país, concluo que lá eu tinha mais amigos que me visitavam, e a solidão era menor. Aqui, com um custo enorme, amigos aparecem. Cansei de convidar.

Meus amigos ingleses me visitavam e eu a eles com frequência semanal. Sempre havia, nem que fosse uma hora na semana, espaço para uma conversa ou um drink. Os pubs locais eram lugares com os mesmos clientes que você conheceria cedo ou tarde.

Aqui, meus amigos estão todos num cio tropical eterno, a cata de satisfação. Todos urgentes, sem tempo, sem espaço, só podem conquistar seus prazeres e afazeres agora e agora, depois será tarde, eles pensam.

Meu amigo morreu, suicidou. Havia de ser forte pra encarar essa solidão tropical, suada e mentirosa, mentirosa porque sempre dá desculpas aceitáveis, tais como a namorada que gruda igual a visgo, a família briguenta que ninguém aguenta mas serve pra se desculpar e o escambau para ficar na ausência com os amigos.

Se ele tivesse alguém próximo, que dissesse que não, que talvez, por mais estúpido que tudo parecesse, ele não precisasse se matar, então talvez ele não tivesse antecipado esse sem sentido. Alguém que dissesse que não, que mentisse dizendo que vale a pena, que amanhã sempre vem, que a vida é cheia de amigos.

Saturday, 21 March 2009

Discurso de formatura 2009/1

Queridos Pais,
Queridos estudantes,
Senhoras e Senhores aqui presentes,

Para que eu pudesse retribuir o grande afeto dessa turma de formandos ao ter me convidado para ser seu paraninfo, eu acreditei que deveria trazer para eles, nessa ocasião, um discurso inspirador.

Um discurso que incutisse neles a esperança de realização e que os inspirasse a um exercício profissional pleno e dedicado. E também que aquilatasse a responsabilidade social que eles adquiriram pelo fato de terem se formado numa das melhores universidades públicas e gratuitas do Brasil. Um discurso que esclarecesse que por esse fato, eles estariam assim em débito para com a sociedade e devendo a ela parte dos agradecimentos que ora se fazem.

Retribuir esse carinho e simpatia também me forçava a trazer para esse discurso originalidade e destreza, de modo a entreter os ouvintes com elegância, sendo ao mesmo tempo inusitado mas tradicional, ilustrado mas simples, rigoroso mas simpático.

Entretanto, ao tentar escrever um discurso com essas características, duas coisas me tiravam a paz.

A primeira delas era o fato de eu não ser tão bom escritor e orador, como o são os meus colegas, aqui homenageados, com quem na verdade, eu aprendi a escrever e a fazer discursos.

O arquiteto Sylvio de Podestá desde sempre marcou o cenário nacional com as suas publicações em arquitetura.

Igualmente o fez a professora Celina em inúmeros artigos e livros, tendo sido ela minha professora no mestrado.

O professor Flávio Hara não foi meu professor, mas sei que tem o talento de escrever muito bem em francês.

O professor Eduardo Ferolla – que foi meu professor -, além do talento arquitetônico, é de uma fluência imaginativa ao escrever, que me causa inveja.

A professora Juliana Torres, coordenadora do curso, para minha tristeza não foi minha professora, mas também tem fluência e escreve muito bem.

E finalmente o diretor do curso de arquitetura, o professor Flávio Carsalade, esse sim foi meu professor e escreve muitíssimo bem, posso atestar.

De modo que eu, aqui, sou quem talvez menos talento tenha para urdir um discurso.

O outro ponto que me deixava ansioso era o fato de que o tempo que eu tive para conhecer os estudantes dessa turma foi extremamente breve. Fui o professor deles na disciplina de Plástica, logo no início do curso, e depois me mudei para a Inglaterra para fazer meu doutorado. Durante 4 longos anos fora do país, a lembrança que eu tinha deles foi através de fotos dos excelentes trabalhos que eles fizeram na disciplina e eu as utilizei como material para um estudo de caso no mestrado que acabei fazendo em Educação Superior na Inglaterra. Também me lembrava deles, especificamente por causa do contraste com sua motivação individual e energia quando, no doutorado, eu tive de fazer entrevistas com desanimados estudantes e arquitetos ingleses.

Talvez o meu contato com essa turma de formandos tenha sido muito marcante naquele início, apesar de breve, porquê estivessemos, eu e eles, em momentos muito semelhantes quando nos encontramos: estavamos iniciando um momento desafiador em nossas vidas, mas com muita disposição. De maneira que um forte afeto, a partir de um breve contato, é o que me traz aqui, mas me deixa sem ter meios de rememorar, num discurso, fatos e feitos para atestar que nossa amizade tem alguma história.

Então, tentando escrever esse discurso, devo confessar que diante desse quadro, eu deixei de lado as minhas intuições e sentimentos e parti errôneamente para pesquisar como se faz um discurso ( até olhei no google e encontrei, com espanto, uma empresa em Portugal que faz discursos sob encomenda).

Depois, recobrei meu juízo e fui me lembrar, num esforço diametralmente oposto, d´A Poética, de Aristóteles, onde ele me aconselhava a ter um inicio, um meio, e um fim, a ser coerente, sintético, e a usar bom português, no meu caso. Isso me confortou sim, mas, no entanto, não me inspirou.

Depois me lembrei das aulas que eu tive com a saudosa professora de filosofia Sônia Viegas. Numa delas, a respeito do Fedro, de Platão, Sônia comentou sobre uma passagem.

Sócrates quis cobrir seu próprio rosto, ao discursar, usando os mesmos argumentos falaciosos que Lísias usara para seduzir Fedro. Quando Sócrates terminou seu discurso, Fedro não tinha dúvidas de que ele era melhor do que o discurso de Lísias. Mas a seguir, entretanto, Sócrates sentiu urgência em refazer todo discurso, e finalmente utilizando então argumentos, agora como obrigação moral em falar a verdade, discursou novamente, sem cobrir seu rosto. E dessa forma foi feito um dos mais belos discursos sobre a origem do amor. Assim, descrevendo Sócrates e Fedro, a professora Sônia Viegas comentou que Platão deixava claro, através desse episódio, que um belo discurso só pode ser belo se falar a verdade.

Muito embora eu concorde com isso, na verdade eu não sei se é certo, quero dizer, válido universalmente. Mas, por exemplo, basta observar como reagimos aos discursos dos nossos políticos para constatarmos nossa indisposição com a mentira e com a oratória ruim.

Tão cansados já estamos com a mentira que se oculta na formalidade vazia de alguns discursos, que sintomaticamente já esperamos por ela ao ouvir qualquer discurso. Por exemplo, basta observar com sinceridade quantos de nós, aqui e agora, deseja verdadeiramente que minha fala seja breve.

E eu serei breve, então.

E vou me dirigir exclusivamente aos formandos aqui presentes, pedindo licença aos demais:

Eu gostaria de dizer a vocês que estamos num momento fabuloso, que a nossa economia está estável, que a sociedade brasileira vai muitissimo bem e que nesse cenário os profissionais de arquitetura são extremamente necessários e têm fantásticas oportunidades de trabalho. Mas prefiro dizer sinceramente que tenho muita esperança de que um dia tudo isso seja verdade. E quando for, desejo ardentemente que vocês tenham se mantido de pé, suportados pela fé num futuro melhor.

Que vocês nunca percam a capacidade de sonhar,
que vocês consigam manter essa paixão pela arquitetura
e lutem para que o meio ambiente seja respeitado por todos.
Que vocês sejam felizes no seu trabalho,
bem humorados, e tenham nele prazer e não se cansem,
por mais que as pessoas que olham de fora pensem que vocês estejam sofrendo.

Que vocês renovem essa paixão pela arquitetura a cada dia,
e transformem todas as ocasiões em oportunidades para criar e melhorar o que já está criado.

Que vocês sejam verdadeiramente felizes.

Vocês quiseram ser arquitetos.

E vocês chegaram até aqui porque vocês quiseram.

Vocês tem tudo para dar certo.

Parabéns, e obrigado.

Monday, 16 March 2009

Ode a imaginada exuberância grega

Queridos, eu queria lhes falar das mais esperançosas perspectivas, mas de um tempo para cá, além de sonhar em preto e branco, meus sonhos emudeceram.

E olha que neles não há piano ou pianola. Há só um som de ar condicionado (ou o interior de um avião) e os sonhos são normalmente uma mostra aflita do lado civil de uma guerra onde eu estou sempre do lado que vem perdendo.

De modo que, me perdoem, mas eu creio que estou virando um bundão na vida. Não tem mesmo valido a pena ficar furioso com as coisas e pessoas imperfeitas, nem tem valido a pena fazer o papel de bonzinho com essas mesmas coisas e pessoas, sendo o eternamente panaca, levando desvantagem em tudo.

Decidi que vou virar um cogumelo e vegetar até o apocalipse. Mas se enfim o fim do mundo não vier, me contentarei de ver a morte e o sem sentido da vida consumindo a tudo e a todos, me contentarei em ver o cético desaparecer feito poeira na esperança de ser convencido a acreditar, e quero ver o crédulo perecer no mais absurdo silêncio de Deus, o safado se arrepender e ser tarde para ele, e o fariseu bater no peito e - puf - evaporar sem piedade.

Jean-Leon Gerome, interior grego - pintura falsificada sob encomenda no site paintinghere.com.

Meu tédio com o mundo ultrapassou o ódio furioso contra as imperfeições e diametralmente a frieza da indiferença blasé: de saco cheio, quero que a ideia da vida grega, exuberante e feliz, se exploda junto com os filósofos mentirosos que a prodigalizaram. Enchi o saco "de com força"...

Campanha contra a vida real

Wednesday, 11 March 2009

Arrepia K.D. Lang




A música é de Leonardo Cohen. Virou para mim o tema musical de um bairro de Sheffield, chamado Hillsborough (pronuncia-se riusbrá), um bairro georgiano do qual tenho lembranças muito doces.
Apesar da cor, a atmosfera pesada e chuvosa era uma das características mais bonitas que cravaram na minha mente. Eu atravessava esse parque a pé, ouvindo "Hallelujah" de Leonard Cohen, cantada por Jeff Buckley. Hoje descobri Ken Lang, e meu imaginário emplacou de novo a sensação que eu tinha...


Sunday, 8 March 2009

Help

País bacana é esse, que quando chega a crise, oferece terapia aos seus ciudadãos.

Tuesday, 3 March 2009

Raio

Monday, 2 March 2009

Aceitassem, e nada seria diferente

Não sei em qual momento eu me tornei um cético, se foi numa dessas desditas de amor ou se foi puro ferro que eu tomei da vida, mas hoje, se tenho de falar de belezuras e esperanças em geral, tenho dor de cabeça. Em geral não dá. Mas também não dá um monte de particulares que, obviamente, não são gerais: são na verdade os meus causos, os causos que acumulei historicamente, e - cá pra nós, ou cá pra mim - eu não dou uma merda por eles.

Um dia meu amigo Zé me perguntou se eu estava infeliz. Eu achei curioso, porque normalmente as pessoas querem saber se você está INfeliz quando te perguntam se você é feliz, e você, estúpido, auto-complacente e rebolantemente auto-misericordioso responde que SIM, ESTOU FELIZ - e em seguida leva uma hora e mil palavras pra explicar coisa tão ilógica. Eu disse que estava me sentindo estúpido, talvez porque estava, agora, numa posição confortável.

Sinceramente... Sinceramente... Eu CAGO montes pra quem fuma uma taba de maconha e tem idéias geniais - (tenho muitos bons amigos que são de tabas, mas nenhum desses se acha tendo as tais idéias, e espero me redimir por qualquer mal entendido), eu simplesmente deploro essa genialidade de ocasião, e aí pode entrar qualquer alavanca pra genialidade do outro.

Se há alguém para quem eu fale, que ele ou ela tenha um frio na espinha de saber que meu olhar congelou - e eu estou achando isso tudo muito bom! É uma forma de eu me redimir por ter me portado como um cara que tentou ser legal mas me senti um idiota, que tentou ser um filho bom, mas não escapou das maldições da minha mãe, que tentou ser um filho legal, mas teve um pai filho de uma puta, que tentou ser um irmão legal mas se sentiu um filho único, ignorado.

Arre, que merda é essa de querer ser sempre legal? Legal o caralho. Queria ser aceito, minimamente, e não me sinto mal por isso não, não custava nada me aceitar...

Sunday, 1 March 2009

Assuntos: Felicidade, Idade, Vida

A suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo que você é; ou, mais corretamente, de ser amado apesar daquilo que você é.

Périplo Saltitante em duas décadas

Em 1973 eu, com 11 anos, tinha no Bobby Van, um humorista desconhecidíssimo no Brasil, o meu ídolo. Talvez pelo fato de que ele, no malfadado Lost Horizon - filme barato, produzido às pressas e com baixa bilheteria - ele tenha sido ele próprio e dançado e cantado, ensinando as crianças a perguntarem uma resposta para que ele respondesse uma pergunta.



Eu mesmo tive umas 3 calças brancas nessa época. A década de 1970 permitia você circular com qualquer coisa sem que a caipirada conservadora que existe hoje ficasse enchendo o saco.

Anteontem, olhando o clip de Bobby Van, descubro outros clips dele, e tristemente leio que ele morrera em 1980, a década maldita. Todos meus ídolos despencaram ou morreram nessa década. Ao contrário dos vapores de 1970, os proximos dez anos foram um analgésico: a pior moda, as piores músicas, o pior povo. E para piorar, meus ídolos morrendo um a um, eu me formando num período de crise econômica ferrada, um plano econômico atrás do outro, o dinheiro mudando todo dia, a inflação galopante, eu fazendo trinta anos nessa década de merda.

Pensando nisso tudo, desopilei meu fígado vendo Bobby nessa cena, alegre e saltitante. Saltitante não seria bem o caso, mas exaustivamente saltitante.



Depois vi uma cópia "homenagem" numa baladinha insípida:
(notem como o saltador sai de um buraco abaixo da escada onde a garota blazé canta a baladinha nheconheco)



Ao fim de tudo, me deu um banzo de 1970 e aumentou meu asco pelos dias de hoje. Como dizia Dom Quixote, "Tempos detestáveis, Sancho!"