Wednesday, 18 July 2007

Tipos argumentativos

Todos os males do Brasil, excetuados os de causas naturais, nascem da ausência, na nossa cultura, de um elemento essencial à vida humana: a busca da verdade. (texto do O. de Carvalho, enviado pelo sempre simpatico Alvaro Drummond). Aí ninguém sabe o que é isso, nem muito menos tenta saber, porque ninguém sente falta daquilo cuja existência ignora. Pior: todo mundo conhece as expressões verbais correspondentes à coisa faltante e as usa para designar uma infinidade de outras coisas, de modo que a falta se torna ainda mais invisível e às vezes parece até uma superabundância. Ausente a busca da verdade, parece que sobram as verdades conhecidas e floresce por toda parte o amor à verdade, com seu complemento inverso, o ódio ao erro e à mentira.

As atitudes humanas ante a verdade traduzem-se imediatamente nos modos de argumentação empregados nas discussões públicas. Argumentar é sempre apelar a uma instância superior que tem o prestígio da verdade e da autoridade. Em todos os debates culturais e políticos no Brasil, sem exceção visível, os modos de argumentação usados são os seguintes:

1. Apologia incondicional de crenças cegas adquiridas na juventude, jamais postas à prova e sempre carregadas de um valor emocional absoluto, que deve ser defendido contra todo ataque do exterior. Para isso o sujeito pode mobilizar uma dose formidável de pensamento racional e até de conhecimentos, mas tudo isso permanece exterior, é usado como mera arma defensiva ou ofensiva e jamais como instrumento de análise crítica das crenças mesmas. Qualquer contato com as idéias adversas deve ser breve e superficial o bastante para evitar o contágio. De preferência elas não devem ser conhecidas diretamente, mas reduzidas logo a algum modelo prévio bastante repugnante.

2. Afetação de modéstia racional mediante o apego à “ciência”, aos “argumentos lógicos”, aos “números” e aos “fatos”, tudo isso acompanhado de desprezo olímpico pelo “fanatismo”, pelo “fundamentalismo” etc. Parece o oposto da atitude anterior mas é uma variante dela, apenas trocado o conteúdo da paixão ideológica ostensiva para a ilusão iluminista de um mundo transparente, uniformemente acessível aos métodos da ciência experimental.

3. Irracionalismo histriônico e afetação de misteriosa sabedoria instintiva, expressa mediante afirmações paradoxais, compactamente obscuras, às vezes impossíveis de analisar por absoluta falta de sentido, mas suficientemente enigmáticas ou chocantes para hipnotizar o auditório. Se acompanhado de prestígio artístico, o método é geralmente bem sucedido. Exemplo, a lição do sr. ministro da Cultura: “A metáfora da música brasileira na globalização efetiva dos carentes objetos da sinergia fizeram a pluralização chegar aos ouvidos eternos da geografia assimétrica da melodia.” Praticantes assíduos foram Oswald de Andrade e Glauber Rocha, no passado. Hoje em dia, José Celso Martinez Corrêa.

4. Simulação de equilíbrio e maturidade mediante uma linguagem polidamente inconclusiva que tenta pairar “au dessus de la mêlée”, só para dar maior credibilidade, implícita ou explícita, a uma opção prévia não justificada que acaba se revelando em algum ponto do argumento. É em geral a linguagem dos editoriais de jornal.

5. Sedução da platéia mediante afetação de bom-mocismo e sentimentos humanitários, patrióticos ou pseudo-religiosos expressos em linguagem melosa ou grandiloqüente, entremeada ou não de rosnados ameaçadores ao partido adverso que revelam sutilmente o ódio psicótico latente sob as efusões do puro amor. Leiam Frei Betto.

6. Diluição das percepções mais óbvias mediante apelo a estereótipos relativistas, desconstrucionistas, pragmatistas, ceticistas, etc., quase sempre para justificar alguma opinião idiota que assim fica dispensada de apresentar suas razões.

7. Talvez não devessem sequer ser colocadas em linha de exame as argumentações fundadas no puro e grosso interesse grupal, quando não no desejo de prazer. Quando o sr. Luiz Mott diz que Jesus era gay , o que ele quer dizer é apenas que aprecia tanto as práticas homossexuais que desejaria fazer delas uma revelação divina. Ma non è uma cosa seria.

Há também instrumentos pseudo-retóricos de uma torpeza sem par que são de uso comum e endêmico em todos esses casos. Um deles é a definição arbitrária dos termos, forjada para levar automaticamente a uma conclusão previamente escolhida. Por exemplo, o sujeito argumenta que as religiões são a maior causa de violência assassina, e quando objetamos que as ideologias materialistas e científicas mataram muito mais gente, responde que as inclui na definição de “religiões”. Outro é o argumentum ad ignorantiam: apelar à própria ignorância da existência de alguma coisa como prova de que a coisa efetivamente inexiste. A lista seria longa e fastidiosa. Não diferiria, em substância, daquela apresentada por Schopenhauer na sua Dialética Erística , apenas com o acréscimo peculiarmente brasileiro de que os próprios nomes latinos dos estratagemas erísticos, depois da edição que fiz desse livro, viraram instrumentos usuais e adornos eruditos dos modos de argumentação acima mencionados. A expressão argumentum ad hominem, usada de maneiras barbaramente impróprias, tornou-se presença infalível nessas conversações.

Esses estilos esgotam o repertório dos modos de argumentação em uso nos debates públicos neste país. O que há de comum entre todos eles é a total leviandade com que evitam o exame efetivo das questões que abordam.

1 comment:

  1. o txto é lindo, o cara é instigante, adorei o misterioso semblante de conhecimento profundo aborígene, e poderíamos discutir isso por muito tempo.
    eu, em minha vertente vorticóide, faço semblante misterioso, dou as mãos para nietzsche e heráclito (seu amigo aqui está bão nisso, cara) e faço um exercício: me pergunto o que é a verdade num mundo em que todo o ser se diluiu no movimento... em que tudo o que é presume permanência, estabilidade, essas coisas, quando só o que há é o movimento?

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