
Pedaços da gente se espalham em memória.
Ficou um pedaço meu lá em Lisboa, mais exatamente lá na beira do mar, num cais do Chiado, naquela tarde meio chuvosa, o mar bravio. Eu pulava as poças d’água depois da chuva leve que caíra, tão desatento, que eu esqueci que eu era turista, e olhei o horizonte embaçado com saudades de um tempo passado ali que eu nao vi ou vivi.
Depois aconteceu em Roma - a das expectações, a que eu tanto ansiava por ver, tão repleta de atrações mas que só num trecho anônimo e vulgar de uma rua qualquer me arremessou de novo nessa lembrança impossível de dias que eu não vivi.
Em Praga, essa memória me aconteceu na primeira manhã friorenta, no carro de turistas, subindo em direção ao castelo de São Vito: num momento em que parei com a aflição de filmar, fotografar, capturar, guardar egoísta e miseravelmente a beleza que eu via, e relaxei, e olhando pela janela do carro os telhados sonolentos dourados com o sol tímido da manhã. A lembrança estava lá calma e serena, sem precisar de fotos ou de vídeos ou de cartões para ser relembrada.
Em Whitby, na subida para o mosteiro de Santa Hilda, há uma escadaria de onde se vê a entrada do porto, o casario cujos telhados são de barro e não das enjoadas telhas de ardósia inglesa, e algumas pequenas e vivas embarcações trançando para lá e para cá, numa ocupada patetice, na boca do mar.


adorei essa foto em preto e branco, com toda a sua precariedade técnica.
ReplyDeletegosto muito dessas fotos ‘mal tiradas’, desfocadas, nubladas, manchadas e tremidas. me parece que retratam a ‘realidade’ de forma muito acertada.
não se fazem necessários muitos mega pixels para se lograr uma foto expressiva.
vc é um cronista viajante ;-)