Sunday, 6 July 2008

Issimo

'O que vai em mim é um profundo cansaço'...

acho que eram essas as palavras de Fernando Pessoa que concluia:
'Cansadíssimo, íssimo, íssimo.'

Talvez resultado de um rivotril tomado a socapa para evitar sair e beber de novo: hoje, saio de um almoco Koreano legitimo, olho as lojas fechadas no domingo - somente os pubs abertos:
alcool, drogas, cigarros, tudo o que for para tornar menos tediosa a vida mediocre de um pais endinheirado, tanto melhor.

'A vida é um tédio, e viver sem imaginação é um chute de coturno no meio das bolas', penso.

Tanto que é tédio, que vários são as desculpas para que deixemos que os dias passem e nos deixem, nos deixem menos empobrecidos pelo grande e absoluto nada em que se transformará a mais heróica das ações, o mais dedicado dos trabalhos ou o mais anódino servico parvo de funcionário público ruim.

A vida dá tédio.

Viver causa essa sensação de vazio, que se preenche modificando-se os sentidos, por bebiba, marijuana, quimicos, barbitúricos, venenos, orgasmos proximos a morte.

Um imenso tédio de nos mesmos, a nos mover a fazer musicas, artes, arquitetuta, todas mediocres, adequadas a esse grande tedio.

Alguém disse uma certa vez que essa é uma necessidade artistica de segunda ordem que move os nossos contemporaneos, para aplacar o grosso do tedio da populaão e camuflar a enorme mediocridade em que se alinham as familias, pessoas, trendies, grupelhos cosmopolitas em feixes radicais, facistas disfarçados.

Sou atrevido de achar, diferentemente de Nietzsche, que não houve uma necessidade artistica de primeira ordem no passado. Passeando pelo Museu Britânico, vendo os objetos da Grécia antiga, meus olhos vítreos enxergam o mesmo desespero com a existência, a arte como um pedido de que os dias passem e nos deixem, um brinquedo para fazer esquecer a morte que vem breve.

2 comments:

  1. Engraçado que tive essa conversa ontem com um amigo. Acho que temos duas opções na vida contra o tédio: anestesia ou criar algo a partir dele. Eu nem vejo essa pulsão como algo ruim, concordo com você: é a pulsão que move o mundo sensível, a nossa apreciação estética da vida. beijos

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  2. Meio nada a ver, mas acabei de ler um livro, Snuff, do Chuck Palahniuk onde ele diz que não dá pra ver a diferença entre alguém morrendo e alguém gozando. Que a musculatura do rosto se contrai da mesma forma nas duas ocasiões. E eu também acho que essa agonia do tédio foi a mola motriz da obra do Augusto dos Anjos, que eu amo. A gente cansa de esperar pelo fim, mas a gente odeia saber que há esse fim. Enfim. Estou bem cansado também. Mas há semelhança nos outros e isso torna as coisas mais suportáveis...
    Saudades de vc, moço!
    Abraço grande!
    :D

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