Sunday, 20 July 2008

Almoco (onde estah o meu ce cedilha?)

Tulim me diz que é desnecessário um regime agora, porque uma mudança internacional tem coisas mais importantes com o quê se lidar e, afinal, eu não vou concorrer a nenhum concurso de beleza. Portanto, segundo ele, posso voltar sem um regime, que o Brasil mesmo me emagrece.


Concordo com o argumento do meu querido, e resolvo a caminhar até o restaurante no Pounds Forge. Coloco para ouvir “La bohème”, do doutor “Jacó” Puccini, italiano e muito dado a exageros românticos, mas me pareceu bastante que combinava com o dia claro, céu raro azul e sol.


A música me leva pelas ruas. Odeio a expressão “flâneur” por pura implicância de a ouvir sendo falada por arquitetos para complicar coisas simples, sobretudo os que nunca realmente leram Baudelaire. Mas sou, assim, sem culpa nessa hora, um “flâuner”, um “stroller”, melhor dizendo – ou melhor ainda, em português curto e grosso: um simples andarilho, hedonista e sem rumo (fica mais simples assim, e sai fora das inumeráveis e confusas classificações inúteis.)


Meu passo é tão devagar e relaxado que eu tropeço as vezes no bico do meu próprio pé – sim, tenho pé grande – e eventualmente pareço um pateta, muito embora meus inimigos digam que não é eventualmente. Vou me desculpando por ostentar, como o Drummond, um Elefante que sou, e não ando disfarçado nele, coitado – eu sou o elefante, ele mesmo, mas me perdoo de o ser assim e de ir me esbaldar num restaurante bom. Tudo por obra e graça dos conselhos de Tulim, meu mais indulgente amigo nessa hora.


Almoço muito bom. Achei tudo melhor que de costume, claro, comida anglo indiana, que se fosse inglesa mesmo não faria sentido comentar. O restaurante fica numa antiga repartição do serviço público de águas da cidade, um prédio eclético, decorado com riqueza e mal gosto, mas o resultado da adaptação foi até satisfatório.


Juntei a música que ouvia, minha aceitação perdulária por mim mesmo, a saciedade da fome e o prazer do sabor, e desci as escadas da grande portada do edifício de mãos nos bolsos, satisfeito e feliz.


Em questão de segundos (isso é muito comum por aqui), um vento frio trouxe nuvens escuras, tirou a luz do sol, e eu tomei o Tram para casa com aquele sono de quem quer “siesta”. La Boheme continua a tocar. No momento de “quando me vou..”, relembro o comentário deixado aqui por outro carinhoso amigo da net, o Helinho, hoje cedo (ou, eu suponho, 1 da manhã de nova York, onde ele mora). Tento relembrar do que ele disse, palavra por palavra, enquanto vou vendo a cidade passsando silenciosa e lenta. Numa parada do tram, entra um senhor, ginger, de aparência estranha, todo tatuado e cheio de piercings, coisa inglesa. Na minha cabeça vem as palavras do Helinho, comentando sobre esse blog: “Tem dias que eu entro aqui e nem tenho coragem de comentar. É vc falando que todo mundo é filho da puta, que tudo é uma merda, com uma verdade tão grande que eu tenho até inveja.”


Fico repetido mentalmente “que todo mundo é filho da puta... que tudo é uma merda...” e de novo a conjunção da música, bem-estar e desejo de dormir me faz cair no riso, aberto, assim, um doido com fones de ouvido e rindo. O riso persistente, vou me perdoando por aparentar ser tão “grumpy” no blog, me achando um maluco, mandando todos à merda - um stressado. Justifico pra mim mesmo que o cansaço do final do doutorado, foi a causa e observo a minha tendência – que tenho controlado- de achar que tudo é fácil de conquistar depois que eu conquistei – e, exato nessa hora, aí eu desvalorizo. Compreendo que isso me joga na posição de tentar explicar “o caminho das pedras” para os outros, mas ao mesmo tempo me joga numa falta de objetivos, e –ah!- viver sem objetivos para mim é doloroso, já disse isso num dos livrinhos que encontrei, ao modo de Miguel de Cervantes traduzindo Dom Quixote, que a vida em si é um tédio e precisa de objetivos...


Continuo com o comentário do Helinho na cabeça, e agora eu rio tanto que o senhor que parece um buldogue de pierciengs está achando que estou rindo dele.


Oops, melhor eu parar de ser feliz tão explícito assim. Além de me render um texto de blog piegas como esse, ainda corro o risco de levar uma porrada aqui nesse metrô.

1 comment:

  1. Ai ai ai! Tá vendo só, quase apanhou por minha causa, hahaha!
    Bom, o vídeo que você me passou da música da galinha eu nunca tinha visto, achei beeeem bizarro... talvez nem seja tanto quando o que eu tinha em mente quando escrevi no blog, que é esse daqui: http://www.youtube.com/watch?v=TTv83D1_5BU
    *
    Eu continuo achando que estamos sofrendo do mesmo mal antropológico da volta pra casa. Isso merecia um estudo aprofundado. O jeito como a gente percebe as coisas nesses últimos instantes, as variações extremas de humor e as quase porradas que levamos nesses perturbados dias...
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    Eu só não quero emagrecer mais no Brasil, senão eu desapareço.
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    E preciso de uns 237 objetivos de vida. Me dá um aí, vai!
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    :D

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