
Essa é a história de Visconde, o Gélido, como era conhecido no bairro belorizontino do Bonfim o rapaz de nome Crisaldo Nunes. Outrora havia naquele bairro uma zona boêmia, onde o dito Visconde frequentava, e muito bem. Ele também cursava por lá um curso superior suspeito, não se sabe se de comércio, se ocultismo ou o quê - era um curso de alguma coisa que ele dizia com a agilidade de um economista apresentando na tv as razões para justificar mais um fisco na poupança nacional. O fato é que ninguém, nem ele próprio, acreditava que o tal curso fosse cursado com zelo, por se tratar ele próprio de um simples frequentador assíduo, mas desatento, que se dirigia ao local porque ao final das aulas noturnas, junto com os colegas, saia às noitadas de boemia e bares baratos da proximidade. Guardadas as proporções, Visconde estava sempre tão atento às aulas como um defunto poderia estar atento à missa de seu próprio corpo presente.
Defuntos, por sua vez, eram outra coisa que entraria na vida de Visconde naquela ocasião. Para o leitor que mora fora das cercanias de Curral Del Rey e portanto desconhece seus locais, a mencionada zona boêmia, próxima à faculdade do Visconde, também era próxima do cemitério de nome sugestivo, o “Bonfim”. Visconde sempre gostava de meditar sobre esse nome, quando, às vezes, caminhava para algum velório que se realizava lá.
“Bonfim”, repetia em pensamento, lembrando que “gente de bem podia pagar um jazigo ali”, enquanto sondava quais velórios estariam mais favoráveis a sua visita repentina de desconhecido da família do féretro. Sempre acontecia, lá pelas tantas da noite, de algum velório ter já cansado parentes e amigos, deixando minguados conhecidos perambulando em volta do esquife. Com esses, Visconde se juntava para carpir o morto, e se aproximava discretamente avaliando a cena.
“-Merda... A família desse aqui é unha-de-fome!” Pensava ele quando o féretro não exibia nenhuma jóia nos dedos, braços, pescoço ou orelhas. Camafeus e broches eram também apetecíveis, apesar de alguns serem de difícil remoção.
“-Essa está ótima!”, ele refletia ao ver uma senhora distinta, vestida de branco e coberta com rosas amarelas até o colo, deitada dentro do esquife e preparada para ser enterrada com jóias nas mãos e no pescoço. Visconde se aproximava, fingia chorar discretamente, depois fingia descontrolar-se um pouco, e então acariciava a mão da pobre dona, enquanto continha seus soluços fingidos e mudos. Quem estivesse perto ficaria comovido com a cena, sem notar que, naquele afago, Visconde também estava removendo o anel à defunta. O dinheiro da jóia, vendida ali mesmo no bairro, seria gasto também ali mesmo no bairro, com putas e bebidas intoxicantes – uma completa economia, fechada, integral e sustentável.
Um desses anéis roubados por Visconde foi parar na mão de Adélia, prestadora local de favores ao rapaz. Adélia, confusa, ainda não entendera se ganhara a peça como paga, como expressão de fidelidade ou satisfação do cliente ou ainda por puro amor.
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