Saturday, 5 April 2008

Inversao


Não desanime o leitor de tanta desordem nessa narrativa, a do nosso personagem Visconde Gélido: ela é fruto de um cérebro convulso, tentando entende-la mas sem pistas nem esperanças de qualquer futuro aos personagens que enreda. De fato, teria sido mais oportuno começar a narrativa pelos defundos – a dona do anel roubado ou a pobre prostituta Adélia, a Transmissora, e depois observar o vivo e espertalhão Visconde, apreciador de prostitutas e defuntas desprotegidas. Seria oportuno porquê, por mero capricho narrativo, uma inversão se daria na história. As defuntas entrariam em ação e o pobre Visconde passaria dessa para a melhor, sem sequer esperar a morte e seu sorriso amarelo. Aconteceu assim:

Saído do puteiro com o anel que outrora fora de Adélia e da defunta, Visconde desceu a sinuosa rua do Bonfim e no passeio notou a presença de mulheres exóticas cujo execesso no trajar revelava que eram ciganas. Voltou-se e indagou, para confirmar, e teve certeza ao receber de uma delas a oferta para que a dita lhe lesse as linhas das mãos. Ao que ele recusou, mas a moça, feia como o diabo mas com os cabelos cacheados, longos e negros, ofereceu-lhe a leitura do seu futuro por vias de uma bola de cristal.


No acampamento cigano, Visconde parecia uma lagartixa, pois movia-se rápido e parava súbito, cheirando, perscrutando, remexidamente observando os personagens daquele lugar retirado, rente a um grotão de terra onde a trupe decidira parar.

-Pode vir, não tem medo não, disse a cigana feia.

Sobrevivendo ao cheiro de roupas sujas de suor espalhadas e colorindo todos cantos, Visconde sentou-se enojado à mesa no interior da boléia transformada em sala da cigana feia.

-No seu futuro, tem uma mulher com cabelos castanhos claros, nova, uns 25 anos, que você não sabe se ama. Você já deu a ela um anel, mas mesmo assim, você não sabe se ama essa mulher. E ela está com muita raiva de você por isso. Ela e outra mulher, amiga dela, que gosta de se vestir em amarelo, estão com muito ódio de você, e querem ver sua caveira.

A cigana prosseguiu mentindo, tanto que Adélia, que tinha na verdade cabelos negros, passou à condição de morta enciumada, tamanha a impressão que aquela patacoada exercera sobre Visconde. E para piorar, o estúpido pediu detalhes da mulher defunta das rosas amarelas. A cigana caprichou nas invenções, detalhou sua vida, e inventou uma razão para a mágoa que só contribuiu para a credibilidade dela: -“Essa moça de amarelo, como a outra, foi abandonada por você, e ambas esperavam que você lhes colocasse o anel no dedo”. Estava armada a confusão.

Trêmulo, Visconde chegou no boteco ao final da rua do Bonfim, depois da consulta à cigana fedorenta e feia. Pediu um cafezinho, e despejando uma quantidade insuportável de açucar, ficou meditando nas palavras da cigana. “- Quer dizer que elas tramam contra mim, do além?”

Teria sido preferível começar essa história narrando que, num dia luminoso de outono, Adélia, a prostituta morta, e uma moça também defunta povoavam a cabeça de um universitário obscuro e bon vivant, apelidado de Visconde Gélido. As duas se mesclavam curiosamente através de um anel, num círculo de ódio gratuito por ele, pobrezinho, que sempre tentara desviar-se dos ódios dessa vida. Mas naquela tarde, ele nao conseguira desviar-se de um veloz buick preto, que o arremessou longe, fraturando-lhe o crânio. Ele morreu antes que ambulâncias chegassem. O anel ficou no bolso.

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