
Um desses anéis roubados por Visconde foi parar na mão de Adélia, prestadora local de favores ao rapaz. Adélia, confusa, ainda não entendera se ganhara a peça como paga, como expressão de fidelidade ou satisfação do cliente ou ainda por puro amor.
Visconde ganhara o seu apelido de “ o Gélido” depois que subtraira a uma defunta o seu anel. Diz-se que o contato com a mão cadavérica da dona acabara esfriando-lhe a mão para sempre. Fora Adélia quem notara a peculiaridade e quem comentara:
“-Nossa! Que mão fria! Gélida!” quando Visconde segurou-a para colocar nos dedos o anel roubado: “- Esse é para você!”
Adélia morreria uma semana depois de receber o anel da defunta. Morreria pertubadoramente de “causas ignoradas”, foi o que o laudo acusou. Perturbadoramente porque, considerando sua profissão, aquela era preocupantemente uma maneira muito mal informada de se morrer. A clientela, com isso, ficara orfã de poder associar a menor trivialidade à culpa de Adélia como uma fonte transmissora qualificada. Como não se soube do que ela morrera, todos os seus clientes que, cedo ou tarde morreram de qualquer causa ignorada ou que adoeceram em consequência à doenças transmissíveis passaram a imputar a Adélia a causa de seu sofrimento. Chamaram-na “Adélia, a Transmissora”. O anel não voltou para Visconde mas foi para a cafetina Valéria, uma espécie de amiga de Adélia, muito zelosa das coisas alheias. Valéria olhava a peça de prata e tinha medo de colocá-la nos dedos. Numa destas ocasiões, Visconde a viu manipulando o anel, parada, em pé, próxima ao balcão de pagamento, no exato momento em que ele saia de um encontro com uma suposta substituta de Adélia.
A ação foi brusca e rápida, o tempo necessário para que ele exclamasse: “Dá cá o anel de Adélia, que eu o roubei de uma defunta para ela!” e num safanão o subtraísse de Valéria. Valéria, ao ouvir tal declaração inusitada e após sofrer o safanão, ficara imóvel aterrorizada, imaginando o fato. Na saída, ainda de costas, do umbral da porta Visconde bradou para Valéria: “Pare de roubar as coisas de uma morta”.
Ladrão que rouba ladrão... Esses dois textos me lembram os contos "adultos" do Monteiro Lobato, que eu adoro. São seus? Se sim, parabéns! Se não, parabéns por ter colocado no blog!
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