“Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
(Tabacaria, F.P.)
Tenho uma relação de amor e ódio com esse poema, mas cada vez minha memória sublinha uma frase, e a frase da vez foi essa.
Bom, parte da minha antipatia é devida ao fato de eu ter ouvido e recitado o tal poema tantas vezes.
Outra boa parte é implicância mesmo, com esse dramalhão exagerado do Álvaro de Campos, essa coisa de descobrir que o pensamento metafísico está associado a acidez estomacal, depois uma farta refeição em que me ponho a pensar no alto da minha mansarda.
Ouvi uma certa vez esse poema sendo recitado por Villaret, que não é o Villaret que morreu em 1961, mas um outro cujo o primeiro nome esqueci. Até hoje me recordo do que ouvi: um amigo gravou para mim uma fita cassete, daquelas que ensebam, e que foi provavelmente copia de um disco de vinil, daqueles que arranham, e aquela coisa mecanica da fita se embolou no cabeçote de um sound-system dos infernos, levando pra sempre meu registro tabágico nas vicissitudes dessa tecnologia analógica cuja lógica é acabar, ensebar, sujar, desintegrar, dissolver e quebrar.
“Quando havia gente, era igual a outra” é o máximo da falta de paciência com a humanidade, coisa com que eu compartilho nesse momento, por isso, então, a memória me trouxe essa linha. Quando há gente, são iguais aos outros. Ensebam, sujam, desgastam, perdem a visão, esmorecem, perdem a força e são, como no dizer de Brás Cubas, pontuais na sepultura. É, isso dá pena.

Porquê são sempre iguais aos outros - elevando essa visão, quem sabe, a altura de uma mansarda para contemplar a miséria humana – porquê sempre se agitam ao longo da vida em desespero frente a expatriação de não ter lugar, à falta de pouso, iludindo-se em morar numa “mansarda” para ter consolo e quietude, mas sempre com um cravo na alma, a sensação de que tudo não é sonho por fora, mas, mais, de que é inútil, e por dentro, onde o sentido? – chamam isso niilismo.
Por aqui estão chamando essa primeira década de dois mil de “the noughties”. Nada mais apropriado.
“Quando havia gente, era igual a outra” é o máximo da falta de paciência com a humanidade, coisa com que eu compartilho nesse momento, por isso, então, a memória me trouxe essa linha.
ReplyDelete.....Renato césar linda sua interpretação, mas aloooooouuuuu, respirando fundo...
ainda existimos alem de tudo...e de todos.