O Fernando recebeu uma carta, que eu escrevi para eles, os formandos em arquitetura de 2007, e ele me disse que ia ler essa carta em sua festa familiar.
Eu disse: “- calma, Fernando, deixa eu arrumar aquela carta, porque quando eu escrevi eram 3 horas da manhã e eu estava cansado, depois de trabalhar o dia todo na tese”, e aí a carta saiu desengonçada, com erros, e sem nenhuma mensagem muito “bacana”, como costumam ser as mensagens de professores para seus estudantes, nessas ocasiões.
Eu me lembro que eu mesmo gostava de ouvir, há uns 4 anos atrás, um discurso de um professor americano que começava aconselhando uma turma de formandos a usar protetor solar. Esse vídeo passou tantas vezes e tantas vezes que no final todos os que gostavam do discurso acabaram enjoando dele e de suas mensagens “bacanas”.
Eu acho que isso acontece com todos os discursos quando eles tentam ser muito bacanas, marcantes e inspiradores. Parece que, nessa hora, o outro lado da vida da gente, que é patético, espontâneo e repetitivo, começa a contrastar com as aspirações altas, e nobres e lúcidas do orador, e acabamos ficando consternados com esse contraste: entre o grande projeto e responsabilidade ética que nos desejam imputar pelos conselhos e o modo real com que vamos ter de nos virar para dar solução às nossas vidas.
Quando então eu fui reescrever a carta para o Fernando, numa crise de criatividade, a única coisa que me ocorreu, de original e inspirador, foi uma mensagem no mínimo estranha:
“Queridos formandos em arquitetura de 2007, virem-se!”
É claro que esse início chamaria a atencão, coisa que um discurso precisa fazer. Então, deixem-me explicar o sentido dessa frase, usando palavras e conselhos bem simples:
Queridos formandos, virem-se!
Não há nenhuma fórmula para sucesso profissional, nem tão pouco nenhum modelo que vocês possam seguir como garantia de sua felicidade e realização.
Virem-se!
A única saída que vocês têm é encarar o fato de que vocês são jovens, e que profissionalmente irão trabalhar para pessoas de seu círculo social. Não haverá atalhos, nem modelos, apenas algumas regras do código moral da profissão de arquiteto, cujas prescriões não incluirão as muitas situações difíceis que vocês provavelmente terão de enfrentar.
Mas não desanimem, virem-se!
Vocês terão de, a partir de agora, iniciar essa construção que é cada um de vocês como um profissional arquiteto. Tão variadas são as possibilidades profissionais que vocês têm a sua frente quanto variados são os tipos de edifícios que existem nesse mundo.
Por favor, não imaginem que a arquitetura seja feita de só um tipo de espaço,
nem só um tipo de solução,
nem só um tipo de estilo.
Nem tão pouco os arquitetos serão sempre os de um mesmo tipo.
É nesse contexto que eu desejo que vocês se virem,
e transformem sua história individual numa razão para fundamentar a profissão que vocês escolheram,
lidando com suas realidades e aceitando encarar sua própria história,
construindo o seu lugar longe de qualquer discurso que queira impor objetivos irrealizáveis,
valores morais falsos, impossíveis de seguir,
e metas cuja consecução requereriam muito mais do que o seu esforço individual.
Sejam honestos, com vocês e com os outros,
E dediquem-se de corpo e alma.
Encarem a vida com alegria.
Virem-se!
Não se deixem abater por quem lhes tirar as ilusões.
Procurem aprender a distinguir entre a ilusão e o sonho.
Não se deixem abater por situações de crise.
Procurem aprender que criatividade veio para dar soluções a essas horas.
Não se comparem com outros profissionais.
Procurem ter em mente que competir é olhar para frente, para um rumo, um objetivo, e não para os lados.
Enfim, virem-se! Procurem ser vocês mesmos, e não se envergonhem de sua própria história.
Desejo que vocês tenham o ânimo longo para começar desde já a superar a grande falta de criatividade de nossos dias, criando, de princípio, a vocês mesmos, na decisão de serem o mais felizes que puderem ser.
Que Deus os abençoe.
Renato Cesar Ferreira de Souza
Tuesday, 11 December 2007
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