Monday, 24 September 2007

Festinha em Nibiru

La vou eu pra festa de aniversario de amigos, abro o armario e tiro a roupa de conservador, visto-me com um dominoh e para presentear o aniversariante levo uma reproducao de um tritao, escultura copiada do mosteiro da pimenta em Lisboa. Sou todo coerencia e linearidade. Uma coisa depois da outra. Mas sei, estou certo, de que meus preconceitos me levarao a uma tarde animada de choques e paciencia para, do lado de fora, fazer cara de moderno.

Meu amigo trata-se de um tatuador, sim, que desenha sobre a pele das pessoas toda sorte de padroes e estamparias, demonios e santos, anjos bons e maus. Um dia me contou que outro amigo seu, que trabalhava como identificador de cadaveres, achava boring quando algum corpo chegava sem nenhuma tatoo, nenhumazinha que fosse, o corpo liso, sem nenhuma macula cultural. "Ele me olha como quem quer me tatuar", uma vez pensei, ja imaginando uma estamparia sem o menor significado no meu antebraco.

Meu amigo eh casado com outro homem. Casado, isso eh possivel aqui. A festa eh no backyard da casa, um tal que se fosse no Brasil seria chamado "beco". E como aqui vaso eh quintal ou jardim, la estao os convivas mais estranhos, espalhados sobre um minusculo quintal cuidado com zelo. Somos um festival de esquisitices, eu e minha roupa de conservador, que eu quis que cheirasse a naftalina, mas algum tipo de droga que usaram cheira mais que meu conservadorismo e nao me deixa aparecer. Eu, minha fantasia de conservador e os outros convivas, obviamente todos tatuados, exceto meu conservadorismo.

"Na Inglaterra, por qualquer coisa alguem incorre numa ofence", comentei eu querendo dar a entender que admirava as duras leis britanicas. Meu amigo redargiu que "Sim, eh verdade, aqui por exemplo, todos ja foram presos". Eu sorrio com o copo na mao, respingando nas minhas roupas de moralista catolico que so dizia que era porque andava com gente que soh dizia que era. Dize-me com que andas e eu te direi quem es.

A cada intervalo de 5 minutos, do ceu cinza cai uma chuvinha fina que parece nao incomodar a nenhum dos convidados, exceto eu. Pareco ser o unico a me molhar, os demais estao fora daquela realidade umida, alem do bem e do mal, mas eu enrugo, rasgo ou desboto.

Para entabular uma conversa interessante, armo-me do mais inutil dos assuntos (que sao os que os ingleses realmente apreciam).

Comento que recentemente eu havia lido sobre o fim do mundo em 2012 porque aquele planeta hipotetico - como era mesmo o nome dele? Ah, planeta Nibiru - estaria mais uma vez em rota de colisao com a terra.

Depois, recito a bobagem sobre o inicio das civilizacoes migradas para terra, vindas do primeiro choque com Nibiru, explicacao detalhada e cheia de especificos, mas sem a menor veracidade.

Eu mesmo me sinto um ET de Nibiru, um mentiroso conservadorista, com minha indumentaria de tecido invisivel que somente os que sao do bem conseguem ver. E estou ali pelado, morrendo de medo, de frio, umido, molhado, enquanto olhos arregalados planejam desenhos de tatuagens sobre a minha pele nua.

1 comment:

  1. esse relato foi tão bom que eu tomei até chuva lá com vc!
    beijos, querido

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