Folheando o hard disk, encontrei uma velha carta aos estudantes quinto-anistas de arquitetura, na disciplina de Trabalho final de graduacao. Hoje, eu provavelmente seria menos prosaico para escreve-la, mas manteria o mesmo conteudo:
Olá a todos. Amanhã temos orientação, espero que leiam isso antes.
Vou solicitar a vocês uma tarefa, e esse pedido me ocorreu hoje, após uma aula de Plástica e Expressão para o primeiro período.
Há uns 18 anos trabalho com o ensino de arquitetura, e me ocorreu hoje, durante a aula com os estudantes, a importância de se criar, no interior do trabalho/projeto de cada um de nós, meios necessários que permitam que a gente se inspire, tenha tranquilidade para pensar concretamente formas arquitetônicas que sejam soluções para problemas que tentamos resolver. Isso me ocorreu porquê me lembrei de alguns anos atrás, quando minha experiência com estudantes no início de curso era mais intensa, apesar de quase sempre trabalhar com os últimos períodos. Sempre houve, eu vi isso hoje, por parte de quem está se propondo a criar um projeto, um momento de relaxamento, propositivo, inicial mesmo, onde a gente busca mais solitariamente ouvir uma música, folhear um livro de ilustrações de arquitetura, ver um filme que pra gente é raro, enfim, ter disposição para ativar as sensações embotadas com milhões de estimulos e conhecimentos (ainda mais no final do curso) para enxergar, ouvir, experimentar - como diria a Susan Sontag, voltarmos a ser sensuais, no sentido de recuperar nossa sensibilidade. E hoje eu percebi que isso é uma disposição pessoal, criada por uma pessoa ou um grupo, mas decidida de modo a permitir que as tensões sejam canalizadas para a atenção, e a ansiedade seja transformada em vontade consciente. Sei que vocês estão fartos, para dizer pouco, de todos os discursos inoperantes e imobilistas, sejam eles da teorética da arquitetura, seja da prática tacanha da técnica da construção do projeto. Nas disciplinas de projeto, talvez eu tivesse conseguido mais dos estudantes se me lembrasse de ter dito isso: arrumem tempo para curtir o projeto e o tema que vocês escolheram, e isso não quer dizer perder o contato com a capacidade individual de tentar controlar as situações pra ter um clima tranquilo e inspirador, mas ao contrário, buscar ver se tem havido tempo, lugar e condições pra criar esse tipo de "espaço". Cada trabalho, desenvolvido por cada um de vocês, tem uma coletânea de dados/informações/condicionantes/ aspectos técnicos e legais, correlações disciplinares, enfim, uma miríade de coisas que podem nos ocupar de forma extremamente prosaica se não estivermos, desde o início, inspirados. Mas sem inspiração não há solução, parodiando Darcy Ribeiro.
O meu pedido é esse: gostaria que vocês trouxessem algum registro que consideram inspirador para o projeto de vocês. Com registro, eu quero dizer imagens, músicas, obras de arte, livros, textos, enfim, tudo aquilo que vocês apreendem como um termo de referência, que vocês curtem, gostam, e acreditam estar relacionado ao que, em cada proposta de projeto, seja um "espaço" inspirador.
Observando cada proposta de trabalho, eu mesmo tenho pra mim expressões desse espaço, mas não sou eu quem está fazendo o projeto. Mesmo assim, olho cada um com um termo, esperando que se manifeste, e que possamos compartilhar, nas orientações, de intenções iniciais um pouco mais claras, sensíveis, menos verbosas, mais concretas. Ninguém, por favor, se sinta obrigado a criar. O que estou tentando dizer é que busquem encontrar ou construir esse "espaço inicial de inspiração" do qual dependerá a sequência de espaços que vocês estão criando.
Não sou dado a esse tipo de papo. Em 18 anos, acredito, com o arquiteto e professor Peter Collins, que o "coração juvenil" seja um lugar difícil pra nós, educadores, tentarmos acessar, e que qualquer falseamento dessas intenções é imediatamente reconhecida e repudiada por gente jovem, como vocês. Eu concordo com isso e faço isso também e, como diz Roland Barthes, é a maneira de eu mesmo me remoçar cada vez que oriento vocês.
Um abraço a todos e até amanhã,
Rcesar
Wednesday, 2 May 2007
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o espaço inicial de inspiração...eu acho que deve ser dos mais difíceis. então vc, mansamente, os convida a ficarem à-vontade. , ando bem assim. ando, bem assim. ando bem, assim. ando bem assim,.
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