Estou me preparando para ir ao meu Local Pub. Como um bom "ingles paraguayo", tambem tenho um local-pub, que eh meu lugar preferido para torrar dinheiro, beber umas e conversar fiado. O Pub vem da contracao de "Public House", onde na era vitoriana eram permitidas as vendas de bebidas intoxicantes. Como nao ha muito o que fazer regularmente, em termos de lazer, na Inglaterra, vai-se entao a pubs. E aquele que se torna seu preferido, indepemdente da distancia de sua casa, vira o seu "Local Pub".
Escolhi meu Local Pub no centro da cidade. A primeira vez que fui lah, tive uma pessima impressao. Por causa disso mesmo, continuei indo. Explico: os Pubs por aqui sao em geral tao reformados com modernidades confortaveis que perdem o ar de despojamento. Alguns sao tao "posh" que tem-se a impressao de estar entrando num palacio, um palacio de exageros. Poucos se salvam disso e preservam certa simplicidade e objetividade: til, onde servir a cerveja, cadeiras onde sentar, palco para pequenos shows, algum espaco para eventuais arroubos de alegria (danca, inclusive um eventual striptease). Nao importa quao sofisticados sejam, nos pubs, quando voce toca qualquer superficie (do balcao, das mesas, de talheres, de tudo), tem a leve sensacao de que tudo estah "tacky", ligeiramente engordurado e pegajoso.
Vencendo esses desafios todos, elegi entao o meu local Pub, chamado simpaticamente "Dempsey's". O unico pub com esse nome que conheci foi o do filme "O poderoso chefao", um pub onde se tomavam decisoes mafiosas. No meu local Pub, entretanto, a variedade de pessoas que acorrem ao consolo das bebidas intoxicantes eh bem grande, a primeira vista. Posteriormente se percebe que somos os mesmos e contantes ali, day in day out, e com o passar do tempo tem-se a sensacao de comecar a fazer parte da mobilia.
Na portaria estah Dawn, uma inglesa de yorkshire que eu amo. Ela eh a "porter", muito simpatica e brava: virei seu amigo apos o dia em que percebi que ela nao deixa ninguem importunar ninguem, e me defende de qualquer chatice estranha como se fosse uma mae zelosa. Nao poderia deixar de ganhar minha simpatia de estrangeiro-que-nao-conhece-ninguem por causa disso. Sempre que viajo lhe trago algum mimo, uma lembranca. Ela passou a fazer o mesmo, o que aumentou minha simpatia por ela e a minha colecao de coisas estranhas que guardo na gaveta, de porta retratos gregos com gaivotas azuis a mini relogios carrilhao.
Invariavelmente no snack bar estara em peh outro ingles curioso, de nome Bryan. Escritor, 56 anos, trabalha atualmente como consultor de uma empresa de publicidade. Bryan eh uma especie de Massoti ingles, meu querido amigo Massoti com quem tantas vezes conversei sobre amenidades de cinema. Mas o Massoti eh mais sofisticado que o Bryan, porque conhece o cinema mundial, enquanto Bryan eh especialista em filmes de lingua inglesa, e ponto.
Cedo ou tarde chega o Tim, o misterioso Tim de quem nao se sabe muita coisa, apesar de ele soh conversar assuntos pessoais, familiares e intimos. Eh um misterio e um artista na arte de ser reservado. Tim tem 38 anos olhos azuis, good looking e tem parkinson's disease, muito pouco manifesta. Eh comum, no meio da noite, Tim comecar a se emocionar e chorar por qualquer coisa, alegando estar triste por causa da doenca. Eu cumpro o meu papel de consolator, dizendo que "voce tem de reagir!", muitas vezes compadecido por que sei que cedo ou tarde os movimentos finos com os dedos e pernas dele vao desaparecer, e provavelmente ele nao volte mais. Sera?
O Martin eh o gay mais simpatico que jah conheci em toda minha vida. Ele serve atras do balcao, mas canta "Sweet transvestite" nas noites de karaoke, transveste-se como o personagem de "Rocky horror picture show" nos eventuais shows e sempre conversa com um sotaque carregado de efeminacao e yorkshirish. Numa ocasiao dei a ele o ultimo DVD de Liza Minelli, o "Liza With Z", para inspira-lo.
Dois irmaos, descendentes de paquistaneses que se lhes ve nas caras, sao preciosos. Parecem gemeos. Ela tem os olhos acentuados como que desenhados, cor lapis-lazuli, labios pronunciados e bem desenhados, sempre muito vistosa e elegante, uns 23 ou 25 anos. Ele, portanto, eh uma versao disso, masculina. Ganhei a amizade de ambos quando revelei que eu era brasileiro, e me perguntaram se eu conseguia falar frances tambem. Desde entao, toda vez que nos vemos, iniciam-se as trocas de salutations em um frances capenga, mirradissimo, tanto da minha parte como da deles. O irmao logo se destaca dela, e vai circular, conversando com todos. Quando um aparece no pub sem o outro, logo se pergunta o que aconteceu.
A sensacao mais estranha eh ver o Jules, outro ingles, chegando com seu namorado. Estranha porque Jules se parece terrivelmente comigo, fisicamente. E, curioso, eh o unico que sabe pronunciar corretamente meu nome, porque jah morou na Italia. Jules soh aparece para cantar no karaoke, o que faz muito bem, quase profissional. Entretanto, depois de um trago ou outro, lah pela meia noite, desaparece.
Steve eh irlandes e trabalha como postman no Royal Mail. Tem uns 44 ou 45 anos, obeso mas good looking, barba branca, e com feicoes do classico santa claus da coca-cola. Seu sotaque eh divertido, as vezes colando as palavras num bloco e terminando a frase com um sorriso. Steve adora dancar, e o modo como ri, danca, se move, me deixa pensando no quanto essas pessoas que sabem manifestar felicidade me fazem bem. Steve foi uma excelente propaganda da Irlanda, por causa de seu humor sempre bom e sua atitude sempre amiga, tenho vontade de superar meus preconceitos e subir um dia na Irlanda.
Jason eh ingles da gema, Sheffieldonian. Tem cara de mocinho de filmes de hollywood, talvez porque sempre compareca de ternos ou blasers, smart e good looking. Ignoro com o que ele trabalha, mas tem uma banda na qual eh o vocalista. Jason foi responsavel pelos melhores momentos de musica ali, pois seu profissionalismo, junto com a expressao corporal, transformam o simples karaoke num show. Ele tem uma fleuma tipica, daquelas estereotipadas, o que o torna bem atraente junto com o senso de humor negro.
Janet eh a mais desafinada para cantar. Nao sou necessariamente um amigo dela, mas a sua simpatia talvez venha do fato de ela ser uma garota gorda, bonita e que canta terrivelmente mal e supera todos esses agravos com um lindo sorriso - daqueles de quem rompeu a timidez.
Ha mais outros fregueses, e - reparo aqui- lembra-los me traz um bom humor raro, talvez em pensar em criaturas que, mesmo que sejam distantes frequentadores de um Local Pub, tem contribuido para suavizar a minha solidao. Nao vou comparar nada disso com as coisas que jah vivi no Brasil, nao ha sentido, sao incomparaveis. Alias, se eu o fizer, fico deprimido. Prefiro pensar que, espalhados pelo mundo, ha sempre pessoas variadas, com estilos e performances diferentes, enriquecendo os lugares com suas presencas.
Redescubro que as pessoas eh que dao sentido aos lugares, como que exorcizando - ao lembrar dos amigos deixados no Brasil - os demonios que povoam minha lembranca dos lugares onde trabalho e vivo.
Sunday, 18 February 2007
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AVE, RENATO!
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