Monday, 27 April 2009

Cego, a princípio

Quando você menos espera, e, pronto: já terá envelhecido, assim, de repente.

E isso não é tão ruim, considerando as opções.

Uma das coisas que ridiculamente me informa que eu fiquei velho é o fato de eu saber distinguir os dias de sábado e domingo como dias que possuem suas próprias personalidades.

Isso parece estranho, mas quando jovem, os dias eram o que eu quisesse, sobre eles regendo eu, mais que calendários ou festas estabelecidas por outrem. Era eu e meu umbigo, como soe ser com o umbigo dos jovens em geral, os que conferiam distinções entre os dias.

Eu e minhas paixões, minhas revoluções e brados heróicos, minhas grandes conquistas, tudo enfim que regia essa minha vida, essa "lide de corcel corredor por campos de liberdade" - eramos nós quem imprimíamos aos dias seu sabor.

E eu celebrava. E depois esquecia, solenemente. Sempre à espera de novos dias e novas aventuras.

A gente envelhece de repente. Um dia percebi que o esquecimento era o que me distinguia, hoje, do que fui na minha juventude. E percebi também que aquelas minhas paixões foram menos do que eu imaginara, minhas revoluções mais submissas, e meu brados - coitados - quase assentimentos. A sensação de liberdade foi na verdade mais interior do que algo espalhado por qualquer “campo heróico”.

E então, ao invés de dias que se marcam e se esquecem, como outrora, comecei a me lembrar das coisas e situações, comecei a me relembrar delas e - pior - comecei a ser feliz me lembrando.

Dessa maneira, os dias foram assumindo um sabor causado não pelo meu umbigo e eu, meus fatos e desejos - mas pelos outros, pela companhia de outros, amigos, gente que caminha cedo com você pelos passeios da cidade sábado e domingo de manhã.

É... parece que virei um velho, perambulando logo cedo pelas manhãs de sábado, aquele passo cuidadoso e reflexivo, olhos pequenos a procura de uma brecha ensolarada para se esquentar. Um velho com certa distinção por saborear o sábado como algo especial oferecido pelos outros, tácitamente aceitando envelhecer junto com eles.

Mas, de novo, amadureço e percebo que ainda assim sou menos que esse velho que eu quisera. Que 11 da manhã não é cedo coisa nenhuma, que eu ando a passos largos e acelerado, e, ao contrário de qualquer reflexão, vou em carreira sem refletir, desabalada...

Sou um cego, a princípio.

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