Eu desço no elevador e cruzo a portaria, ou melhor, o "ator-portaria". Dentro dele há um porteiro dormindo. O "ator-portaria" é a conjunção do espaço para vigilância, do conjunto de regras de vigilância, dos equipamentos para a vigilia, e de mais um porteiro, humano. Esse último, por ganhar pouco trabalhando como partícipe do "ator-portaria", tem de participar de outros atores em outras redes sociais. E por trabalhar demais, esse componente do "ator-portaria" acaba interferindo com a rede que a compõe, porque não vigia nada na verdade, mas dorme.
Premido por uma urgência em comprar cerveja ali do lado, não faço mais do que me exercer como parte de outro ator: "o cara compreensivo". "O cara compreensivo" é um tipo de conjunção aparentemente confortável, composto por um sujeito burguês, um serviço mais ou menos estável (mas infernal) e uma corja de amigos que o censuram por qualquer ato menos cortes que venha a ter contra a inépcia, a ineficiência e a negligência. "O cara compreensivo" é por excelência um bundão sem coragem, que a título de compreensão evita qualquer confronto. Portanto, fui bundão, quero dizer, compreensível, e fui comprar minha cerveja, centrado no meu umbigo. No meio do caminho, me gabei por ter a ANT para me explicar que eu não deveria culpar os porteiros por nada, que eu deveria pagar os quase 400 reais de condomínio e tê-los 24 horas dormindo ou assistindo televisão dentro da guarita. Afinal, eu era um "o cara compreensivo".
Já de posse de um fardo de cervejas, aguardo minha vez na fila do caixa do supermercado. O supermercado é esse outro ator espetacular, que expõe "caras compreensivos" como eu à sua irracionalidade como partícipe do consumo ebrifestante, irracional e acéfalo. Dentro do supermercado minha função é escolher coisas, colocá-las no carrinho e padecer na espera na fila para pagar. Nessa imensa conjunção de coisas e pessoas que é o supermercado, a fila conta conosco e também com uma mocinha morena, cabelos presos, rosto blasé, cuja função espetacular é ler o código de barras dos produtos e somar o resultado como conta a pagar. Exatamente aí mesmo, nessa função tão minima, tenho vontade de gritar palavrões acusando-a de absolutamente incompetente por demorar dias para fazer um servicinho mecânico, mas não, a ANT não me permite fazer isso, porque através da ANT, a moça estúpida do caixa é só mais uma parte de um ator que é o caixa, e eu, a outra parte, eu sou "o cara compreensivo", e "caras compreensivos" não xingam caixas preguiçosas e com má vontade, mas compreendem que elas estão cansadas e portanto, têm o direito de odiar cada produto que scaneiam o preço, consumando sua maldição ao nos dizer o total da conta.
Exausto de tanto compreender vou caminhando e olhando esse mundo maravilhoso da ANT, uma construção intelectual que me permite ter calma, e volto para casa, prudente e remediado.
Dou boa tarde ao porteiro, mas ele não responde porque está dormindo.
Sou um pouco preguiçosa para comentar, ainda mais que leio sempre no Google Reader mas não podia dormir como teu porteiro, e deixar de atestar a leitura. Sensacional, Renato!
ReplyDeleteFiquei imaginando isso em um curta dirigido pelo Jorge Furtado e narrado com aquela ironia do cinema que ele faz.
Acho que esses porteiros são produzidos em série. Tem um malocado aqui no prédio. Agora está igualzinho ao teu mas antes de uma sutil interferência minha,
alternava horas de sono com filmes
na NET. Tudo isso com o meu patrocínio já que ele roubava um dos cabos do meu apartamento. Justamente o que era responsável pelo sinal da Internet. Toda noite de sabado minha conexao sumia e voltava milagrosamente na manhã de domingo. Um dia flagrei o gato e agora ela já pode dormir os 7 dias da semana. Tenho sempre a delicadeza de subir pelo elevador de serviço para que o social não faça barulho e não atrapalhe o sono do justo.Juro!
Beijo