Thursday, 7 August 2008

A pimenta e o azedo

Amigos me convidam para um jantar num restaurante paquistanês.

Para dar uma idéia da minha falta de paciência com as coisas e com as pessoas nesses últimos dias, tão logo eu cheguei no restaurante escolhi meu prato e pedi também que ele não contivesse nenhuma pimenta. Ou seja, foi o equivalente a ir numa churrascaria e pedir um filé de peixe qualquer.

O prato veio, mas veio horrível: foi como perceber que o rei estava nu. “Sem a pimenta queimando a boca e os lábios, a comida paquistanesa é sem gosto, sabor, textura”, pensei. “Além do que é ‘overcooked’ também, uma pasta amorfa”, completei. O meu prato estava muito pior do que o pior bobó de camarão que eu jamais pudesse ter provado.


O restaurante, aparentemente um restaurante fino, estava lotado de ingleses queimando suas bocas no desafio de tentar comer alguma coisa. Todas as janelas estavam fechadas para garantir o efeito de finesse: fazia-se de conta ser de noite, e no teto pintado de preto, leds luminosos imitavam um provável céu noturno de Kashmir, - enquanto lá fora era dia num calor de 28 graus celsius. Esse ar de disneilândia “paqui” acentuava ainda mais ruindade de tudo aquilo.


Em algumas paredes, cobriando-as de piso ao teto, impressionantes baixos-relevos esculpidos em madeira pesada decoravam a cena. Nenhum desses efeitos especiais, entretanto, me convenceu de que aquilo era um restaurante sério. Mais uma vez, ali estava alguém que misturava pimenta, cardamomos e outras especiarias de forma descuidada na comida, e se dizia um chef. E todos nós, pobres clientes, eramos chamados a dizer amém, qualificando aquele lixo apimentado de comida.


“Pode ser apimentado, mas quem está azedo aqui é você”, disse a mim mesmo, na voz do meu alter-ego, super-amigo, que sempre aparece nas piores horas para me atormentar. E enquanto eu observava com um rabo de olho a dificuldade dos outros em comer, eu dizia a mim mesmo que não, que eu gosto de comidas com pimenta sim, como por exemplo, as deliciosas variações do Kimchee sul-coreano, as apimentadas paellas espanholas, as ricas comidas da Bahia, as pimentas cheirosas de Minas. O que nao da pra engolir eh a comida mal-feita se passando por boa. Ademais, olha que maravilha, eu comi aquela coisa insossa ali sem ficar com a boca toda pegando fogo, e sem me angustiar para tomar água ou limpar minha língua com o chapati.


Senti como que uma libertação quando um dos meus amigos comentou que achara a comida ruim, ao final. Eu tinha certeza de que era ruim mesmo. Mas não disse nada, tentando me convencer de que eu não estava mal-humorado.


Caminhamos para fora do restaurante, enquanto minha cabeça armava um novo mistério: “se eu parei de fumar para respirar melhor e então eu engordei 10 quilos, hoje continuo entao arfando para conseguir carregar esse peso todo... Quem sabe eu nao volto a fumar?”



3 comments:

  1. intaum quer dizer que c voltou? =)

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  2. Dear Sam, ainda nao! Estah quase lah!

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  3. Se voltar a fumar te dou um cascudo!
    :D
    E comida paquistanesa eh horriveeeeeeel!!!

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