O problema, e o que fazia desse sonho um pesadelo
era isso:
quase.
Acordei nesse mundo um minuto antes do fim.
Caminhei pelo que deveria ter sido outrora um edificio residencial e que agora estava abandonado ao silencio
de um fim que nao veio.
Por toda parte
restos desesperados de papeis,
objetos caidos na correria,
eletrodomesticos que ainda funcionavam,
moveis dificeis de carregar.
Havia um grande,
enorme silencio.
Passada uma extensao daquele corredor onde se podia ver o horizonte silencioso, dei com uma porta do que deveria ser um auditorio, que estava, claro, vazio tambem.
Nem tanto.
Havia lah dentro alguem que, por esses misterios de sonho, eu sabia que vivera ateh ali atormentado.
Era um jovem,
o jovem atormentado,
e vestia branco.
Sentava-se na ultima fileira, e olhou-me aterrorizado no momento em que movi a pesada porta de metal verde e entrei. Olhou-me como quem diz:
"- ue, entao nao acabou?"
Quase como por um instinto, entrei mansamente, como um faxineiro entraria para a limpeza diaria, e fui gentilmente abrindo as janelas que estavam cerradas.
Enquanto eu as abria,
descortinando um horizonte abandonado e sobrevivente,
vinha-me a memoria
a lembranca do dia anterior:
gritos,
histerias,
gente fazendo seus ultimos desejos com medo de morrer,
prazer e dor,
assassinatos,
cultos exoticos sobre brasas de carvao,
choros desesperadores
e muito,
muito arrependimento.
Um horror.
E depois disso tudo, o mundo nao acabara,
nao como fora previsto que acabaria.
Quando eu tentava abrir as janelas que ficavam sobre o vao da escada, ouvi outros dois jovens que eu tambem conhecia - mas nao tenho ideia de onde - chegando.
Um estava bebado e apoiava-se na caridade do outro para subir e entrar naquele auditorio. Quando conseguiu finalmente subir a escadaria,
viu-me
e comecou a gritar qualquer coisa
com aquela voz que os bebados usam ter.
Provavelmente estava zombando de todo mundo
o que me aterrorizava naquele momento:
o mundo nao acabara.

Ficamos os tres naquele auditorio,
esperando pelo inicio do espetaculo,
o bebado quebrando o silencio com zombaria,
seu amigo silencioso suportando sua loucura,
o jovem de branco de olhar atormentado,
e eu,
que soh naquele momento me dera por convencido de que o mundo precisava ter mesmo acabado.




























