Wednesday, 28 February 2007

Gatos

Que coisa! Nao me canso de repetir: que coisa!
Mas nao se trata de coisa, eh uma pessoa.
Ou um bicho,
porque se comporta como um felino,
rodeando rodeando rodeando voce
ate se acomodar, deitado, ao seu lado, e entao comeca a ronronar afundando o rosto e a cabeca no tecido do meu pijama, ficando ali, escondidinho, reclamando meu abraco e carinho.

Acordei de manha cedo, e olhei aquele bichinho dormindo, ameacado de ser esmagado por meu corpo - corpo historico, jah diria Barthes, isso mesmo, historico, pesado, cansado - exausto...

Tomei o cuidado na hora de virar para nao sufocar-lhe o folego, e abriu os dois olhos verdes claros num olhar cuzquenho - seria isso um bom dia?

Depois, modelou no meu pijama um melhor suporte para sua cabeca, e me apertou como se quisesse se esconder entre meu corpo e a cama, e voltou a pegar no sono.

Tuesday, 27 February 2007

Pisando sem esmagar as flores

O que eh que eu faco com isso, me explica? Isso, esse, aquilo, aquiloutro...
Desmaio de sono - muito vinho - e amanha tenho um appointment early in the morning. Mas quis Deus que uma das criaturas mais lindas aparecesse. E agora vou ter de bancar o anjo. Ok... Vou ser um anjinho bom, fazer cafune como se fosse um toque da brisa, beijar como se fosse de dentro de um sonho, me deixar ser apertado como se fosse um travesseiro... Ressaca, eu? Nao! Bom, espero que nao... Como diria Carlos Drummond, no final do "O Elefante": Amanha recomeco.

Fabrico um elefante

de meus poucos recursos.

Um tanto de madeira

tirado a velhos móveis

talvez lhe dê apoio.

E o encho de algodão,

de paina, de doçura.

A cola vai fixar

suas orelhas pensas.

A tromba se enovela,

é a parte mais feliz

de sua arquitetura.

Mas há também as presas,

dessa matéria pura

que não sei figurar.

Tão alva essa riqueza

a espojar-se nos circos

sem perda ou corrupção.

E há por fim os olhos,

onde se deposita

a parte do elefante

mais fluida e permanente,

alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante

pronto para sair

à procura de amigos

num mundo enfastiado

que já não crê em bichos

e duvida das coisas.

Ei-lo, massa imponente

e frágil, que se abana

e move lentamente

a pele costurada

onde há flores de pano

e nuvens, alusões

a um mundo mais poético

onde o amor reagrupa

as formas naturais.

Vai o meu elefante

pela rua povoada,

mas não o querem ver

nem mesmo para rir

da cauda que ameaça

deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora

as pernas não ajudem

e seu ventre balofo

se arrisque a desabar

ao mais leve empurrão.

Mostra com elegância

sua mínima vida,

e não há cidade

alma que se disponha

a recolher em si

desse corpo sensível

a fugitiva imagem,

o passo desastrado

mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres

e situações patéticas,

de encontros ao luar

no mais profundo oceano,

sob a raiz das árvores

ou no seio das conchas,

de luzes que não cegam

e brilham através

dos troncos mais espessos.

Esse passo que vai

sem esmagar as plantas

no campo de batalha,

à procura de sítios,

segredos, episódios

não contados em livro,

de que apenas o vento,

as folhas, a formiga

reconhecem o talhe,

mas que os homens ignoram,

pois só ousam mostrar-se

sob a paz das cortinas

à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite

volta meu elefante,

mas volta fatigado,

as patas vacilantes

se desmancham no pó.

Ele não encontrou

o de que carecia,

o de que carecemos,

eu e meu elefante,

em que amo disfarçar-me.

Exausto de pesquisa,

caiu-lhe o vasto engenho

como simples papel.

A cola se dissolve

e todo o seu conteúdo

de perdão, de carícia,

de pluma, de algodão,

jorra sobre o tapete,

qual mito desmontado.

Amanhã recomeço.

Saturday, 24 February 2007

Empatia

Depois de uma profunda e intensa reflexao durante mais de 40 anos, cheguei a conclusao de que os seres humanos sao de dois tipos:
1) Aqueles que, dirigindo, dao seta para avisar que vao virar ou parar;
2) Aqueles que nao fazem o especificado na primeira categoria e pensam que o mundo circundante sabe o que eles pensam.

A segunda classe de seres humanos eh composta de seres humanos de segunda classe, a quem falta um ingrediente essencial para a vida no planeta e em sociedade: empatia. Entre Hitler e Einstein provavelmente os comparativos de inteligencia sejam iguais em resultados, mas o segundo tinha a capacidade de saber o que eh ser humano.

Thursday, 22 February 2007

Uma Layer sexual

Amo tecnologia quando ela desaparece e deixa a gente viver melhor.

Um dia, comprei dois possantes headphones sem fio, stereo e almofadados, que aquela coisica de enfiar no ouvido eh muito chata e me dah coceiras, e o tradicional headphone com fio eh uma tormenta. Achei e comprei um par, na esperanca de leva-los comigo para o Brasil.

A coisa consiste em um pequeno transmissor do tamanho de um maco de cigarros dotado de uma antenazinha do tamanho do polegar. Uma vez plugado na saida de qualquer fonte, transmite para um raio de 300 metros o seu som, em stereo e highfidelity, a ser captado pelos fones colocados confortavelmente sobre sua cabeca. Ideia simples para evitar os malditos fios, soh isso. Ao lado do fone direito, dois botoes controlam a sintonia e o volume.

Pois bem, quando comprei, exibido que sou, passei a desfilar pela casa com aqueles fones enormes, enquanto meus roommates usam bluetooth espetados num unico ouvido. Causou sensacao, todos concordaram que era pratico, funcional e confortavel. Foi entao que, na mesma noite fiz uma descoberta interessantissima: sobre aquilo que eu percebia como o espaco do apartamento haviam outras layers, como universos paralelos soh acessiveis atraves do aumento da percepcao. Com a coisa na cabeca, lah fui eu apanhar um copo dagua. E eis que, dependendo da posicao onde estivesse, comecei a ouvir gemidos languidos, sim, certamente de um intercurso sexual. Eram pelo menos tres diferentes, dependendo de minha aproximacao com cada porta ou direcao. Entendi que a maquininha captava outras frequencias que estivessem no raio, e o que eu estava ouvindo era a vida (?) sexual do apartamento ou do predio. Pessoas ouvindo por bluetooth filmes de sacanagem, ao leo.

Nao vou tecer comentarios sobre o tipo de gemidos que ouvi. Tudo o que tenho a dizer eh que pareciam sinceros e verdadeiros.

Voltei para o meu quarto, desliguei a geringonca, e tentei dormir, ficando horas com os olhos arregaloados e no silencio.

Foto ilustrativa: Tim descobre com curiosidade que seus gatos tentam ter gatinhos,
usando o headphone magico (ele, o Tim, nao os gatos, que sao dois gatos machos...)

Wednesday, 21 February 2007

Tempura ansiosa

Tarefa do dia: reduzir dois anos a uma hora para apresentar aos estudantes do MArch, do Chengzhi, o meu framework. Eles vao trabalhar com meu framework. Ao final de minha tarefa - preparando-, tive uma visao geral de todo conteudo e dos weakest links entre assuntos. E agora, de cansado, me sinto como quem escapou de um campo de batalha vivo. Meio capenga, mas vivo. O meu ingles, entao, tadinho, virou um macarrao, comigo escrevendo cansado e rapido para montar a lecture naquela lindura de pauerpointi. Meu computador consome pelo menos 60% da memoria util com spelling check e gramatica, fora 3 dicionarios gigantes ligados.

Fato eh que estou ansioso.
E de tao cansado, perdi o senso, entao vou parar por agora e depois recomeco.


O meu amigo Koreano, a que fiz mencao no post abaixo, apareceu, junto com Mr. Wangii, e me raptaram pra ver uma exposicao fraquinha, fraquinha na "Milenium Gallery" daqui. Fraquinha mesmo. A galeria da biblioteca da cidade eh pelo menos 10 vezes mais rica e interessante, com pecas de todo tipo de artista, de Picasso a Gaudi. Fomos lah depois, e de lah ao mercadinho chines.

O mercadinho chines eh, na verdade, uma loja que, de tao baguncada internamente, dah a impressao de tratar-se de um mercado. Mr. Wangii ficou na incumbencia de traduzir os rotulos chineses. Basicamente eu procurava tempura para noodle (jah notou como eu gosto de noodle?) e acabei comprando tres potes de temperos esquisitos, apimentados e oleosissimos, mas garantidamente chineses.

Quando preparei a tempura, ao provar do tempero apimentado, me ocorreu o tanto que eu comecei a gostar de pimenta depois que passei a morar nessa terra. Os Jalapenos, que antes ardiam, viraram snacks; ground pepper, que eu sistematicamente evitava, ficou fraquinha pro meu paladar; chilli sauce de kebab, que antes eu passava longe, chega hoje a ateh a ser refrescante; pimentas jamaicanas me tesam pelo perfume. Ou minha lingua recobriu-se de algum tipo de asfalto e eu perdi completamente a sensibilidade, ou de fato, a coisa toda eh muito gostosa. O vicio subiu para os outros sentidos, passei a apreciar perfumes tambem spicy. Sai de um humilde frasquinho de Davidoff, cheirando a manha nos alpes, prum Fahrenheit e um Tierre D'hermes com aqueles cheiros de depositos de pimentas exoticas. Eu nao gosto de perfumes. Por serem bons e baratos aqui, eu os uso oportunisticamente. E venho cultivando essa tara por pimentas em todos os sentidos.

De novo o sono bate... nonsense de uma madrugada insossa.

Tempura Udon, vendida congelada e a preco de banana nanika.

Tuesday, 20 February 2007

Um dia

Tenho a estranha sensacao de que esse blog soh tem e terah um unico leitor, que eh o meu amigo que sugeriu que eu o criasse...

Dia cansativo, na aula para o 1st year, os meninos disputam o projeto de um lugar para conversa, a ser construido nas pracas de Barnsley, cidade vizinha. Cada grupo focaliza um material diferente. Eu e a Joh fizemos par elegante de tutores, ela mais elegante que eu, com seu ingles impecavel - claro, eh nativa -, e eu, com meu sotaque de russo e cavanhaque pintado.

A unica forma de eu esquecer que o ingles nao eh a minha primeira lingua eh discutindo um assunto que gosto. Dando aula as vezes isso acontece. Mas o que me deixa exausto eh o fato de eles, os estudantes, virem de um sem numero de cidades em todo Reino Unido, cada uma com sotaque e expressoes diferentes. Ai, ao fim do dia, estou zonzo de decifar cada peculiaridade. Se tivesse que comparar com o Brasil, diria que o ingles da Escocia eh o portugues do Rio de Janeiro, em termos de sibilantes e rolling "r".

Fico lembrando meus apuros com a lingua inglesa antes de sair do Brasil: amigos ajudaram-me o mais que puderam, mas um erro aconteceu, que foi - talvez por uma incrivel campanha historica de propaganda de cursinhos de ingles - acreditar-se que o ingles eh a lingua mais facil do planeta. Coisa nenhuma. Eh decerto a mais dificil, cheia de variaveis, irregularissima, e soh eh referencia internacional por causa do colonialismo. Fosse a Republica Tcheka o pais mais rico do planeta, e agora diriamos que o tcheko eh facilzinho de ser aprendido e falado.

Num dado momento da tarde, sai para fumar na entrada o edificio. Um momento que aprecio: relaxo, olho o ceu constantemente em mudanca. Alguns alunos passam, me reconhecem e cumprimentam. Aceno e lembro do trabalho que estao desenvolvendo. Trago o cigarro e penso: devo ser mesmo alguma coisa de "pai" ou "mae" pra alunos meus. Porque, o resto da cidade, sendo tambem estudantes, me dah nauseas. Tenho alergia a estudantes universitarios estupidos, mas os de arquitetura, ah, esses sao - na minha cabeca - mais educados, talentosos, simpaticos e ate mesmo bons de coracao!

Finalizada a sessao fantasia, retorno para o Studio. Duas horas depois, estamos indo embora, cinco da tarde. O dia estah azul-acizentado, a temperatura por volta de 10 graus. Passo no shopping center que eh o diretorio academico da Union e compro um Noodle Koreano. Em casa descubro que, pra variar, ateh o noodle koreano eh sofisticado. E enquanto vou comendo (uma delicia!) me penitencio por um dia ter acreditado que a Korea era o pior lugar do mundo.

Ha cerca de 20 anos atras, quando cai na loucura de tentar ser pintor, tive um atelier que ficava em outra parte do bairro onde eu morava. Eu pintava a maior parte do dia, ficava por conta, e depois, a noitinha, retornava para casa. Minha casa ficava num lugar que recebeu, historicamente, o nome carinhoso de "Korea", por ser ruim demais, desassistido de beneficios urbanos e outras amenidades. E era tao verdade que - coisa de pobres - os moradores de lah deixavam seus cachorros soltos rondando as casas miseraveis, e qualquer alma penada que despontasse na rua, de noite, seria fatalmente perseguido pelos caninos.

A alma penada era eu, que sabendo da fama da Korea e do habito pouco civilizado dos moradores, donos de cachorros, logo aa entrada na descida de uma das ruas, colhia umas pedras bem graudas e as punha no bolso para afugentar os bichos latidores. Nunca acertei nenhum, e talvez eles se lembrem de mim ate hoje como "aquele doido que vem de noite e fica atirando pedras na gente". Pobres cachorros.
Talvez os gatos tambem se riam de mim
junto com os cachorros daquela epoca...

Quando cheguei aqui, ganhei um colega que se tornou amigo, e ele eh Koreano. Do sul. Contei-lhe a historia e ele riu muito, dizendo que essa antiga fama da Korea era relativa as guerras constantes que seu pais sofrera ou que provavelmente era a respeito da Korea do Norte e seu ditador maluco, mas que agora o Sul encontra-se em outra fase e mais para cima nada se sabe, exceto que andam explodindo bombas atomicas subterraneas. Com o tempo fui sendo surpreendido pela cultura koreana com toda sua riqueza de detalhes, seu ar sofisticado, como o Japao, sua comida e sua arquitetura mais alegre, como a da China. Tenho vontade de ir lah. Jah fui convidado duas vezes, e deixei de ir a China pra ir no Brasil o ano passado. Mas ainda vou.

Comprei tambem um suco de "babosa", sim, "aloe vera" em forma de suco, com gosto de limonada e alguns bits da planta dando um sabor de selva na boca.

Imagens, memorias, linguas e gostos. Isso eh cansaco.

Aproveitando que eh carnaval no Brasil, desejo ao meu provavel unico leitor um carnaval com muito humor:

Monday, 19 February 2007

Desconstrucao com sono ao final

Por falta de inspiracao tempo, resolvi escrever sobre um assunto batido diferente que eh o proceso de desconstrucao citado por Dovey. Essa tarefa boba desconstrutivista que me imponho ao aguentar escrever esse texto procura o prazer, jouissance felicidade produzida pelo texto ridiculamente desmontado. Trata-se de uma perda de tempo resistencia a construcao social do "Self" identidade, que argue que o prazer do texto significado das coisas nao pertenca a uma classe dominante elite. A ideia eh desfazer o fechamento desmanchar em torno da ideia de verdade prodigalizada pela cultura ocidental como cerne questao dos textos que admite aceita.

Essa tarefa de descontruir estah ultrapassadissima eh a de tornar o texto acessivel facil para multiplas interpretacoes e em particular deferindo recusando qualquer significado definitivo. Opondo assim as ideias de estrutura, unidade, identidade a autoridade ao poder que serve para imobilizar o jogo dos significados na vida social. Heidegger, em 1962 tambem usou escrever com palavras rasuradas, e se ele pode, porque eu tambem nao poderia? com a finalidade de significar que o sentido daquelas palavras marcadas rasuradas nao pode ser atingido com a linguagem escrita. Boa noite, vou dormir, cansei. Oportunamente comento mais sobre essa bobagem esse topico.

Sunday, 18 February 2007

Uma ultima palavrinha...

Eu amo esse clip. Judy Garland, fingindo nao ter ensaiado, chama a filha para cantar. Um microfone estupido sobe do chao do palco, e as duas se entreolham admiradas com a americanidade da modernice. Em seguida, Liza comeca a cantar, na sua melhor forma, e arrebata o publico, como se tudo fosse espontaneo e nao ensaiado. Repare a expressao de Liza, certamente ficara congelada na historia de boas cantoras de Jazz.

Meu rigoroso juri

Me ocorreu uma ideia maluca: a de que, em tendo um blog literario, eu nao consiga me expressar mais do que eu mesmo considero "veleidades", como diria minha amiga Roma. Pois ter um blog eh impor-se a obrigacao de escrever, e sendo literario, escrever algo para ser lido. Isso me desperta um jurado que fui acumulando ao longo da vida, constituido por professores do colegio batista, inimigos muito particulares, padastros emprestados pela vida afora, e jah na universidade, um sequito de borrabotas querendo se passar por donos da verdade: todos eles reunidos com o dedo em riste e dizendo: "Renato, ao escrever seu blog, voce deve parecer ser um bom escritor, em consideracao aos seus provaveis leitores!"

Nem preciso dizer que a esse jurado dispenso minhas piores ofensas, muito embora por simples condicionamento seja tentado a ter algum respeito. Mas isso tambem passa. E se sigo a consideracao desses sabios e doutos que prescrevem as minhas piores sentencas, transformo isso tudo aqui numa outra maneira de me esconder na vida, como tenho feito de varios outros modos, igualmente falsos e pseudo-alguma-coisa. Que blog seja mesmo uma coisa classe media, a classe media pouco encorajada a expor o que pensa ao vivo nas festinhas de que toma parte, eu concordo, mas tem muita gente experimentando se expor, e nao vai ser um jurizinho de merda que me ira ditar como devo escrever.

Em ultima instancia, tenho na memoria algumas escritoras fabulosas, como Cecilia, Clarice ou Adelia Prado. Elas escrevem veleidades tambem, algumas beirando o extremo mal gosto ou a completa insensatez, criticadas pela pseudo e imbativel intelectualidade de plantao. Tambem as acho, no que sobrou do meu machismo nos dias atuais, mulheres melifluas e frivolas, mas - fazer o que?- eu as amo, e nem tanto as considero idiotas como para nao tomar o exemplo delas e fazer ao meu juri, de dedo em riste, outro dedo, na vertical, em resposta.

P.S.:
1)Na Inglaterra se fazem dois dedos. Uma vez, querendo aparecer, como sempre, C... difundiu isso, a historia dos dois dedos, mas aqui vim a saber a verdadeira razao. Na guerra dos cem anos, numa batalha em territorio ingles, um dos generais ameacou cortar os dedos de todos os soldados ingleses caso vencesse - isso para que eles jamais voltassem a manejar o arco e a flecha matadores. Ao final da batalha, vencedores os ingleses, eles imortalizaram o gesto dos dois dedos para cima, que converteu-se depois no V de vitoria de Churchil e no "fuck you" vulgar, como sempre, dos americanos.
2) Como se pode notar, me auto-censurei em prol do bem viver...

Muito educada, Joana Darc (1337–1453 lutadora na
guerra dos Cem Anos) nunca usou fazer o gesto com os dedinhos. Tambem pudera, ela era francesa.

Esquisitices 1

No post abaixo, intitulado "exorcismo", pareco Alice no Pais das Maravilhas pagando pau para o primeiro mundo: soh percebi assim depois de retornar do pub do qual faco mencao, agora, tarde da noite. Nao era minha intencao. Ha outros personagens sine-qua-non um pub nao seria um pub, e esses, deixemos classifica-los como esquisitos. Ah, os esquisitos! Como sao tantos!

Sao tantos, que ao final de tudo, inclusive da cerveja do seu pint, voce mesmo jah se considera um deles, um dos esquisitos, arrebatado por aquela alegria ebrifestante e acida, suportando todos os dardos e arremessos sempre adversos dessa vida de butequeiro sem-vergonha. Melhor assim. Seria um contrasenso ir a um pub e ficar sobrio, ou defendendo um ponto de vista, ou sobrepor seus pensamentos aos da maioria bebada. Soa como ouvir um hino de um pais, e sendo patricio, nao se emocionar e nem ligar a minima. Ao final de tudo, voce estah esquisito tambem, mas nem tanto que perca a memoria do seu hino nacional.


Um pint, bem grande, mas com os mesmos
um oitavos de galao determinados pela rainha.


Pubs sao o pior lugar para encontros com fins sexuais. Pois, raciocine, nenhuma atividade fisica seguira depois de 8, 9 ou 10 pints de Stella Artois, belga, ou 10 de Foster's, australiana. Nao ha sexo depois do pub, pode-se ate tentar, mas a sacanagem pretendida terminara em uma festa de batizado. A razao eh simples: bebedeira.

Brasileiro que sou, acostumado com "o melhor, depois da festa", tive que me adaptar a isso: hoje, depois de um exercicio enorme de flexibilidade e abnegacao, vou ao pub sem nenhum tesao, uma madre tereza de calcuta em trajes masculinos, bebedor e fumante. Creia. Ateh porque, se eu pretendesse algo mais, eu myself seria improvavel de arcar com meus desejos depois de tanta cerveja boa.

A lei das 11 horas caiu, os pubs agora ficam abertos o quanto queiram, e como um resultado, a galera fica ateh o final, willy nilly. Quando tudo acaba, o espetaculo fica por conta da saida dos "esquisitos" pela porta da frente: me lembra algo como o ressurgir de mortos numa das trombetas apocalipticas.

Eventualmente, na saida, poucos se falam.

A maioria, miando, procura o caminho de casa, em meio ao frio de 5 graus.

Tempo

Bela escreveu um interessante post sobre a sensacao de frio. Eu copio e comparo com o que venho sentindo por aqui.

Ela comeca assim:

Dizem que frio é relativo, até mesmo psicológico, né?
Então tá...

30º C ou mais, Inglaterra: - Decretada calamidade publica para a Ilha. A previsao eh que a agua vai faltar ainda por mais 3 semanas. O NHS nao tem mais como receber pessoas na terceira idade que entraram em colapso com o calor. O indice de afogamentos nas praias welshes bateu o record. Toda a coast line esta tomada de gente buscando alivio para o que parece ser o estertor do verao infernal. A BBC e Tony Blair nao param de falar de Global Warming. Soh falam.

30º C ou mais, Brasil: -Baianos vão a praia, dançam, cantam e comem acarajé -Cariocas vão a praia e jogam futebol -Mineiros comem um "queijin" na sombra -Todos os paulistas estão no litoral e enfrentam 2 horas de fila nas padarias e supermercados da região -Curitibanos esgotam os estoques de protetor solar e isotônicos da cidade.

25ºC: -O calor tem sido tanto mais acentuado dentro de interiores como sua casa ou o metro. Nesses, a ausencia de janelas que francamente abrem, fazem a sensacao termica ainda pior. Scarborough foi invadida por toda yorkshire, buscando alivio. Uma senhora de 59 atirou-se nua no Tamisa.

25ºC: -Baianos não deixam os filhos sairem ao vento após as 17 horas -Cariocas vão à praia mas não entram na água -Mineiros comem um feijão tropeiro -Paulistas fazem churrasco nas suas casas do litoral, poucos ainda entram na água -Curitibanos reclamam do calor e não fazem esforço devido esgotamento físico

20ºC na Inglaterra:- O calor pronunciado indica que o inverno sera tardio. Tubulacoes de gas vazam pelo pais afora, dado que nao suportem essa elevacao constante de temperatura. Blair segue pedindo medidas para atacar o Global Warming, incluindo esse assunto nas acoes do G8.

20ºC: -Baianos mudam os chuveiros para a posição "Inverno" e ligam o ar quente das casas e veículos -Cariocas vestem um moletom -Mineiros bebem pinga perto do fogão a lenha -Paulistas decidem deixar o litoral, começa o trânsito de volta para casa -Curitibanos tomam sol no parque

15ºC na Inglaterra: A temperatura baixou um pouco, mas o calor continua. A BBC insiste que parte do gelo do polo esta derretendo por debaixo da superficie, como atestam as fotos de satelite. A British gas considera o prejuizo desse verao prolongado como o pior de toda sua historia.

15ºC: -Baianos tremem incontrolavelmente de frio -Cariocas se reúnem para comer fondue de queijo -Mineiros continuam bebendo pinga perto do fogão a lenha -Paulistas ainda estão presos nos congestionamentos na volta do litoral -Curitibanos dirigem com os vidros abaixados

10ºC na Inglaterra: Uma brisa fresca caiu sobre a ilha e agora eh possivel trabalhar e viver com mais normalidade. Os banhos individuais regularizaram e a falta de agua acabou.

10ºC: -Decretado estado de calamidade na Bahia -Cariocas usam sobretudo, cuecas de lã, luvas e toucas -Mineiros continuam bebendo pinga e colocam mais lenha no fogão -Paulistas vão a pizzarias e shopping centers com a família -Curitibanos botam uma camisa de manga comprida.

5ºC na Inglaterra: O tempo agradavel tem feito um grande movimento no turismo nacional. Legioes de ingleses se movem pelo pais afora, curtindo a temperatura fresca e o inicio da primavera.

5ºC: -Bahia entra no armagedon. -César Maia lança a candidatura do Rio para as olimpíadas de inverno. -Mineiros continuam bebendo pinga e quentão ao lado do fogão a lenha. -Paulistas lotam hospitais e clínicas devido doenças causadas pela inversão térmica -Curitibanos fecham as janelas de casa.

0ºC na Inglaterra: bate-se o record de consumo de cerveja e spirits nos pubs. Seguem-se os problemas de alcolismo de praxe. A vida voltou ao normal, e a noite, todos saem as ruas para se distrair. M&S sugere a cor marron para a moda, com medo de seu fracasso no verao, quando sugeriu verde. A grande atracao do fim de semana sera o paredao do Big Brother. Blair insiste em fazer o combate ao Global warming a sua plataforma para as proximas eleicoes.

0ºC: -Não existe mais vida na Bahia. -No Rio, César Maia veste 7 casacos e lança o "Ixxnoubórdi in Rio". -Mineiros entram em coma alcoólico ao lado do fogão a lenha. -Paulistas não saem de casa e dão altos índices de audiência a Gilberto Barros, Gugu Liberato, Luciana Gimenes e Silvio Santos -Curitibanos fazem um churrasco no pátio... antes que esfrie.

Essa eh a vida...

Exorcismo

Estou me preparando para ir ao meu Local Pub. Como um bom "ingles paraguayo", tambem tenho um local-pub, que eh meu lugar preferido para torrar dinheiro, beber umas e conversar fiado. O Pub vem da contracao de "Public House", onde na era vitoriana eram permitidas as vendas de bebidas intoxicantes. Como nao ha muito o que fazer regularmente, em termos de lazer, na Inglaterra, vai-se entao a pubs. E aquele que se torna seu preferido, indepemdente da distancia de sua casa, vira o seu "Local Pub".

Escolhi meu Local Pub no centro da cidade. A primeira vez que fui lah, tive uma pessima impressao. Por causa disso mesmo, continuei indo. Explico: os Pubs por aqui sao em geral tao reformados com modernidades confortaveis que perdem o ar de despojamento. Alguns sao tao "posh" que tem-se a impressao de estar entrando num palacio, um palacio de exageros. Poucos se salvam disso e preservam certa simplicidade e objetividade: til, onde servir a cerveja, cadeiras onde sentar, palco para pequenos shows, algum espaco para eventuais arroubos de alegria (danca, inclusive um eventual striptease). Nao importa quao sofisticados sejam, nos pubs, quando voce toca qualquer superficie (do balcao, das mesas, de talheres, de tudo), tem a leve sensacao de que tudo estah "tacky", ligeiramente engordurado e pegajoso.

Vencendo esses desafios todos, elegi entao o meu local Pub, chamado simpaticamente "Dempsey's". O unico pub com esse nome que conheci foi o do filme "O poderoso chefao", um pub onde se tomavam decisoes mafiosas. No meu local Pub, entretanto, a variedade de pessoas que acorrem ao consolo das bebidas intoxicantes eh bem grande, a primeira vista. Posteriormente se percebe que somos os mesmos e contantes ali, day in day out, e com o passar do tempo tem-se a sensacao de comecar a fazer parte da mobilia.

Na portaria estah Dawn, uma inglesa de yorkshire que eu amo. Ela eh a "porter", muito simpatica e brava: virei seu amigo apos o dia em que percebi que ela nao deixa ninguem importunar ninguem, e me defende de qualquer chatice estranha como se fosse uma mae zelosa. Nao poderia deixar de ganhar minha simpatia de estrangeiro-que-nao-conhece-ninguem por causa disso. Sempre que viajo lhe trago algum mimo, uma lembranca. Ela passou a fazer o mesmo, o que aumentou minha simpatia por ela e a minha colecao de coisas estranhas que guardo na gaveta, de porta retratos gregos com gaivotas azuis a mini relogios carrilhao.

Invariavelmente no snack bar estara em peh outro ingles curioso, de nome Bryan. Escritor, 56 anos, trabalha atualmente como consultor de uma empresa de publicidade. Bryan eh uma especie de Massoti ingles, meu querido amigo Massoti com quem tantas vezes conversei sobre amenidades de cinema. Mas o Massoti eh mais sofisticado que o Bryan, porque conhece o cinema mundial, enquanto Bryan eh especialista em filmes de lingua inglesa, e ponto.

Cedo ou tarde chega o Tim, o misterioso Tim de quem nao se sabe muita coisa, apesar de ele soh conversar assuntos pessoais, familiares e intimos. Eh um misterio e um artista na arte de ser reservado. Tim tem 38 anos olhos azuis, good looking e tem parkinson's disease, muito pouco manifesta. Eh comum, no meio da noite, Tim comecar a se emocionar e chorar por qualquer coisa, alegando estar triste por causa da doenca. Eu cumpro o meu papel de consolator, dizendo que "voce tem de reagir!", muitas vezes compadecido por que sei que cedo ou tarde os movimentos finos com os dedos e pernas dele vao desaparecer, e provavelmente ele nao volte mais. Sera?

O Martin eh o gay mais simpatico que jah conheci em toda minha vida. Ele serve atras do balcao, mas canta "Sweet transvestite" nas noites de karaoke, transveste-se como o personagem de "Rocky horror picture show" nos eventuais shows e sempre conversa com um sotaque carregado de efeminacao e yorkshirish. Numa ocasiao dei a ele o ultimo DVD de Liza Minelli, o "Liza With Z", para inspira-lo.

Dois irmaos, descendentes de paquistaneses que se lhes ve nas caras, sao preciosos. Parecem gemeos. Ela tem os olhos acentuados como que desenhados, cor lapis-lazuli, labios pronunciados e bem desenhados, sempre muito vistosa e elegante, uns 23 ou 25 anos. Ele, portanto, eh uma versao disso, masculina. Ganhei a amizade de ambos quando revelei que eu era brasileiro, e me perguntaram se eu conseguia falar frances tambem. Desde entao, toda vez que nos vemos, iniciam-se as trocas de salutations em um frances capenga, mirradissimo, tanto da minha parte como da deles. O irmao logo se destaca dela, e vai circular, conversando com todos. Quando um aparece no pub sem o outro, logo se pergunta o que aconteceu.

A sensacao mais estranha eh ver o Jules, outro ingles, chegando com seu namorado. Estranha porque Jules se parece terrivelmente comigo, fisicamente. E, curioso, eh o unico que sabe pronunciar corretamente meu nome, porque jah morou na Italia. Jules soh aparece para cantar no karaoke, o que faz muito bem, quase profissional. Entretanto, depois de um trago ou outro, lah pela meia noite, desaparece.

Steve eh irlandes e trabalha como postman no Royal Mail. Tem uns 44 ou 45 anos, obeso mas good looking, barba branca, e com feicoes do classico santa claus da coca-cola. Seu sotaque eh divertido, as vezes colando as palavras num bloco e terminando a frase com um sorriso. Steve adora dancar, e o modo como ri, danca, se move, me deixa pensando no quanto essas pessoas que sabem manifestar felicidade me fazem bem. Steve foi uma excelente propaganda da Irlanda, por causa de seu humor sempre bom e sua atitude sempre amiga, tenho vontade de superar meus preconceitos e subir um dia na Irlanda.

Jason eh ingles da gema, Sheffieldonian. Tem cara de mocinho de filmes de hollywood, talvez porque sempre compareca de ternos ou blasers, smart e good looking. Ignoro com o que ele trabalha, mas tem uma banda na qual eh o vocalista. Jason foi responsavel pelos melhores momentos de musica ali, pois seu profissionalismo, junto com a expressao corporal, transformam o simples karaoke num show. Ele tem uma fleuma tipica, daquelas estereotipadas, o que o torna bem atraente junto com o senso de humor negro.

Janet eh a mais desafinada para cantar. Nao sou necessariamente um amigo dela, mas a sua simpatia talvez venha do fato de ela ser uma garota gorda, bonita e que canta terrivelmente mal e supera todos esses agravos com um lindo sorriso - daqueles de quem rompeu a timidez.

Ha mais outros fregueses, e - reparo aqui- lembra-los me traz um bom humor raro, talvez em pensar em criaturas que, mesmo que sejam distantes frequentadores de um Local Pub, tem contribuido para suavizar a minha solidao. Nao vou comparar nada disso com as coisas que jah vivi no Brasil, nao ha sentido, sao incomparaveis. Alias, se eu o fizer, fico deprimido. Prefiro pensar que, espalhados pelo mundo, ha sempre pessoas variadas, com estilos e performances diferentes, enriquecendo os lugares com suas presencas.

Redescubro que as pessoas eh que dao sentido aos lugares, como que exorcizando - ao lembrar dos amigos deixados no Brasil - os demonios que povoam minha lembranca dos lugares onde trabalho e vivo.