Thursday, 28 February 2008

Meia hora soh

"O cheiro do ralo" apresenta seus personagens numa bidimensionalidade que chega a ser irritante: afetos e desafetos são aplainados numa mesma dimensão, onde duas coordenadas imperam: a solidão e a falta de significado. A caminhada de Lourenço no lado de fora mostra uma cidade plana, feita de muros pichados e mal pintados, em plano frontal com a câmera. O local de trabalho de Lourenço é caracterizado por uma porta de metal numa parede de um galpão.

A solidao - eu interpreto - apresenta os personagens desconectados de uma vida social ou familiar - Lourenco tem uma mae, mas a mãe não aparece, é só sugerida. Ele quer reconstruir um pai, que chama de pai-frankenstein. Por sua vez, outro pai que aparece na história é o pai da noiva abandonada por Lourenco, que o ameaça pelo telefone, mas é de novo só uma sugestão.

Os personagens desfilam, indo e vindo da sombra à luz, a beira do palco, exibindo um objeto que trazem e negociam com Lourenço. Lourenco nao é um qualificado marchand de relíquias, nem um oportunista, nem outra profissão plausível. Ele negocia os estranhos objetos, alguns improváveis como o olho e a perna do que chamaria de seu pai, outros tão banais como uma caixinha de música. Mas nada disso é revelador, exceto do fato de que as coisas não fazem sentido, e Lourenço tenta entender o sentido que elas tem, estabelecendo pequenas e poderosas equações. Uma delas é que comprar é melhor, pois quem compra, tem poder sobre o que compra. A outra regra inferida por ele é a de que o olho, comprado de um bizarro negociador, lhe dá, ora azar, ora sorte. Outra ainda é a explicação que ele mesmo inventa de que o cheiro do ralo primeiro lhe corroi os pensamentos (e provoca o rompimento de seu noivado) e depois é a fonte de sua força e crueldade: a vida é dura.

No meu entender era para ser um filme maravilhoso, desde que não se estendesse tanto sobre as repetidas afirmações de seus personagens. Uma vez esclarecidas, eles passam a ser redundantes, e o que se salva, na minha opinião é devido a brilhante interpretação de Selton Melo. Mas mesmo o Selton, ainda um pouco caracterizado como um jovem e ainda de rostinho bonito (para agrader o público?) não encontra na aparencia de seu personagem o suporte necessário para o fundo psicológico em que ele se afoga. Roupas, hábitos, tiques, faltou bastante para criar um estranhamento de um personagem independente e surpreendente. Enfim, o filme poderia durar meia hora, que conseguiria passar tudo que passou.

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