Dona Luiza me ensinou um tipo de nacionalidade que pintou um Brasil que, hoje, eu vejo que não existe. Aliás, nunca existiu. Para ela, o paraíso era no Brasil: “- no Brasil não tem terremoto, maremoto, vulcão, furacão, não tem nada dessas destruições que têm em outros lugares.” Eu me achava muito especial, protegido pela sua reza da comida, ali, sentado, almoçando e observando-a enquanto ela falava. Estivesse viva a Dona Luiza e comentaria, ao ver essa notícia de terremoto no Ceará: “-isso é o fim do mundo!”Lembro-me de uma vez em que, saindo da minha casa após uma visita, Dona Luiza foi pega por uma ventania que destelhou a cobertura e formou um torvelinho de vento, quase um tornado mirim. Passado o susto, ela me explicou cientificamente que era o capeta quem ficava no meio do redemoinho, mas as vezes podia ser também o saci-pererê.
Confesso que esse último era um pouco ignorado pelo meu bestiário particular de garoto de 6 anos, talvez em decorrencia de ja estar me ocupando aquela epoca com os monstros e bichos da Disney.Mas se o saci era impopular, Dona Luiza contribuira em muito para alimentar outros seres fantásticos e teorias mirabolantes. Não me esquecerei nunca da vez em que indaguei porque a forma da lua se modificava no céu, e ela respondeu, sem pestanejar, que dependia do jeito de a lua estar trespassada no pano do céu, para ser suportada por ele. Obviamente retruquei que havia ocasiões em que lua nao tinha nenhum trespasse para ficar presa, como na lua cheia, e ela explicou, bem moderna: “- durex!”
De outra feita, minha curiosidade por uma cornucópia que ela mantinha na sala de jantar me levou a loucura, e não hesitei em “xuxar” o objeto dependurado com um porrete. Caiu, obviamente, aquele chifre cinza de belzebu, e foi pela primeira vez que ouvi esse verbo, o tal “xuxar”, quando ela explicou para meu avô: “- Ele xuxou com um pedaço de pau até cair, Manoel”.Antes de partir, Dona Luiza fez muitas outras coisas espantosas e divertidas. Das divertidas, me lembro de quando ela, numa farmácia, ficou desesperada por conta de estar atrasada para um compromisso que tinha, depois de ler as horas numa balança. Foi com ela que conheci aquela maldição dos docinhos de festa, ardida feito pimenta, os cravos da Índia.
Aprendi que diabetes era a pior doença do mundo, pois não se podia comer doce, e que a palavra “lustre de cristal” quer dizer “arvore de natal de cabeça para baixo”.
Foi ela quem, quando se aproximava a data de partir, juntou as economias, deixou de ser pão dura e comprou um relógio vertical gigante, pra pôr na sala, um relógio que marcava as horas tocando como Big Ben.
“- Chama-se ‘Carrilhão’ minha filha”, ensinava ela a minha mãe.
"- tchau vó Luiza"!








