E, de subito, vendo o meu tamanho e o quanto eh dificil fazer uma dietazinha de nada, senti-me como uma nau, que nao anda mas singra. Eu estava na frente de um espelho, e abracei a um amigo, coitado, que por ser menorzinho, magrinho e delicado, - ele parece uma menininha - me fez parecer uma nau com bracos peludos, provavelmente os bracos peludos de uma cariatide brava, presa no bico de proa, um destimno infame de ir a frente, espantando a tudo e a todos.
Talvez eu seja mesmo uma nau. Nao ando, eu singro.
Venho singrando meu casco por essas ruas inglesas nesses anos, casco vermelho, sem rugas ao menos mas coberto de mariscos brancos que tentam delatar a minha idade.(hehe, essa de mariscos brancos doeu, viu...) Nada que nao custe o trabalho de remove-los sistematicamente.
E quando ando pelas ruas com meu amiguinho - aquele, franzininho - ao lado, o contraste entre as duas flutuacoes eh tao intenso que meu amiguinho mais parece um barquinho de papel. Eu, imenso e pesado, sou lento e vagaroso, tinha de ser, para nao ameaca-lo.Sempre tenho impressao de que as pessoas que ficaram para tras estao a acenar um adeus para essa dupla aquatica, o quixote e sancho marinhos.
Recentemente, fazendo ginastica, um torque de forca tem reforcado a singra, mas nada demais que reflita no controle desse navio que eu sou. As bordas balancam de acordo com meu humor, e a linha do horizonte ganha aquele balancim que faz enjoar os mais ousados observadores. Quando entao ponho um chapeu, acentuam-se os movimentos enjoantes dos observadores - o que, particularmente eh muito gozado, pois na verdade o tal movimento eh o que me faz ficar em balanco harmonico com o mar.
Navego todo dia.
Navegar eh conciso.
Ou preciso.
Ou necessario.
Viver eh confuso, sem concisao mas eh necessario tambem, que historia eh essa!, onde jah se viu!, isso aqui nao tem nenhuma ines na tripulacao nao.
E assim vai a miriade de imagens de mim como um navio, e meu pobre amigo como um cargueiro ou barquinho de pesca, a vida numa rua singrando entre ineses afogadas, camoes e camaroes, livros flutuando a superficie.
Tuesday, 26 June 2007
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é uma cena inteira essa imagem. inês afogada, lusitana nave, os livros encharcados, mas esperando ao seu redor num mar quase calmo. os textos que temos sei lá por quê de escrever sofrem de estranhos sintomas, né? tudo tem vontade de virar ficção quando o que é preciso é singrar um mar de hipóteses. bom trabalho por aí. beijo.
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